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EDITORIAL

Uma Câmara desavergonhada

A desculpa manjada e esfarrapada de 19 vereadores para não apoiar a CPI é a de que o assunto já foi encaminhado ao Ministério Público. Balela

por Da Redação
Publicado há 48 minutos
Editorial (Divulgação)
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De onde menos se espera, é de lá que não sai nada mesmo. Para surpresa de ninguém, a Câmara de Rio Preto enterrou a instalação da CPI que se propunha a investigar a exploração da Cidade da Criança como estacionamento durante o show do Guns N' Roses, em Rio Preto. Eram necessárias oito assinaturas entre 23 vereadores, mas apenas Alexandre Montenegro (PL), João Paulo Rillo (PT), Pedro Roberto (Republicanos) e Renato Pupo (Avante) aderiram ao requerimento que determinava a abertura da comissão.

O principal fato motivador dessa CPI específica é que o escândalo atinge diretamente o coração da Câmara de Rio Preto. Há o envolvimento direto de ao menos três servidores públicos: o vereador Kleber Kizumba (PL), o agora ex-secretário de Finanças e Orçamento José Luiz Pereira - nomeado pelo presidente da Casa, Luciano Julião (PL) - e Egídio Antunes, assessor do vereador Bruno Marinho (PRD), que continua no cargo. Isso seria razão mais do que suficiente para a Câmara investigar o que ocorreu, já que são todos funcionários pagos com o dinheiro do povo.

A desculpa manjada e esfarrapada de 19 parlamentares para não apoiar a CPI é a de que o assunto já foi encaminhado ao Ministério Público. Balela. É natural, e até recomendável em algumas situações, a ocorrência de investigações paralelas que possam se complementar lá na frente. Caso contrário, seria melhor revogar de vez a prerrogativa, prevista na Constituição Federal, que o Legislativo tem de fiscalizar e instalar CPIs.

O que realmente leva esses vereadores ao silêncio nada tem a ver com a atuação do MP. Ao menos dois dos envolvidos no caso - Kizumba e Pereira - são umbilicalmente ligados ao vice-prefeito Fábio Marcondes (PL). É fato que, até o momento, não há qualquer menção à participação de Marcondes nessa história mal contada. Mas certamente uma CPI provocaria desgastes ao governo - afinal, a autorização para exploração da Cidade da Criança partiu diretamente da Secretaria de Esportes -, e a base aliada é indubitavelmente mais fiel ao governo que à população. Vide o caso do IPTU.

Vale lembrar que alguns dos vereadores que se recusaram a assinar a comissão tentarão a sorte nas urnas em outubro deste ano. É importante o rio-pretense ter isso em mente na hora de depositar seu voto: se eles já fazem esse papelão representando o município, o que dirá caso sejam eleitos para defender o Estado de São Paulo, seja na Assembleia Legislativa ou na Câmara dos Deputados.

Ao fim e ao cabo, o arquivamento da CPI do Estacionamento só reforça que a atual legislatura é o puro-suco da subserviência, da falta de transparência e dos interesses politiqueiros e eleitoreiros. Quem achava ruim a composição da Câmara 2021-2024, com 17 vereadores, está aí a prova de que é só ampliar o número de cadeiras no Legislativo para ficar ainda pior.