Um tesouro em preto e branco

Quando atendeu o telefone numa tarde qualquer em seu escritório no centro da cidade, o jornalista e memorialista Fernando Marques – além de tudo, também um paciente acumulador de qualquer coisa na qual veja alguma importância histórica- ainda não sabia, mas estava prestes a se tornar o guardião de uma parte inestimavelmente valiosa da história de Rio Preto. Do outro lado da linha, dona Déa Colagiovani – viúva do fotógrafo Jaime Colagiovanni, manifestou a decisão da família de confiar aos cuidados de Marques a guarda de dezenas de milhares de negativos em preto e branco referentes a eventos públicos e particulares com a presença de autoridades, empresários, artistas, anônimos – todo tipo de ocasião, de inaugurações de lojas a velórios célebres, passando por jogos de futebol, paradas militares, procissões religiosas, um grande mosaico da vida da cidade aí pelos anos 50 e 60, justamente na época em que Rio Preto começava a desabrochar.
Hoje, Fernando se lembra de ter se esforçado para não cair de costas ao perceber o tamanho e a importância do acervo Colagiovani, recebido em caixas de sapatos e impecavelmente protegidos em folhas de papel manteiga. O processo de digitalização foi iniciado em seguida e hoje anda em torno da casa dos 20% do total. Além dos negativos fotográficos, a família também passou aos cuidados de Fernando Marques dezenas de latas contendo os cinejornais produzidos nos anos 1960 pela “Jotacê Filmes”, uma empresa criada por Colagiovani em parceria com o jornalista Amaury Junior para exibir noticiosos nos cinemas locais antes do filme principal. Segundo Marques, cerca de 40% do acervo dos filmes puderam ser recuperados.
Jaime Colagiovanni não foi apenas “o fotógrafo que está em todas”, como resumia o slogan que gostava de juntar ao seu nome. Foi, também, um cronista da cidade, influenciava trajes e comportamentos quando as pessoas se preparavam para ir a algum lugar e sabiam que estaria por lá, fotografando.
Durante muitos anos, Jaime publicou na “Folha de Rio Preto” a coluna “Folha de Urtiga”, cujo nome se auto-explica. Eram notas curtas, quase sempre ácidas, sobre fatos de todo tipo. Um dia, envolveu-se numa polêmica ao criticar a apresentação de uma peça teatral em que os atores apareciam nus no palco do Teatro Municipal. As diatribes do cronista provocaram uma súbita enxurrada de manifestações – as que vinham dos meios intelectuais espinafravam o autor, as enviadas pelas velhinhas de Taubaté o aplaudiam.
As tristemente celebrizadas fotos da tragédia com os estudantes, no rio Turvo, sempre foram tratadas com reserva pelo fotógrafo. Único profissional presente desde o momento do resgate dos corpos, Jaime Colagiovanni produziu um documento de terrível crueldade histórica. Da mesma forma, os momentos da missa de corpos presentes em frente à velha Catedral e da missa de sétimo dia, no estádio Mário Alves Mendonça, compõem uma tocante comprovação de consternação e solidariedade, tendo como cenário a cidade que custava a entender e aceitar a tragédia.
Seus negativos guardam um tesouro de flagrantes da política municipal na época em que os adversários encontravam-se pela rua, tomavam cafezinho no Bar do Jeca e desafiavam-se em público, quase sempre com bom humor e respeito. Tornou-se célebre a foto de Jaime em que Alberto Andaló aparece, de navalha em punho, preparando-se para escanhoar o rosto ensaboado de um Bady Bassitt resignadamente sentado em uma cadeira de barbeiro. Era o pagamento de uma aposta entre os dois – quem perdesse se sujeitaria ao “risco” de ser barbeado pelo adversário.
Por dever de ofício, Jaime estava sempre ao lado dos personagens da política local, mas raramente se manifestava a favor de uma ou outra tendência – era amigo de todos. Quebrou essa neutralidade, já no final dos anos 1980, na época da disputa presidencial entre Fernando Collor de Melo e Lula.
Francamente favorável ao primeiro, Jaime admirava as atitudes intempestivas do “caçador de marajás” e chamava a atenção para a juventude e vigor físico do candidato dândi. Chamava então o oponente de “losna” – sabe-se lá porque usava esse nome de planta para demonstrar um quê de desimportância – e proclamava, em tom de brincadeira, numa [época em que as brincadeiras eram possíveis quando se conversava sobre política:
_ Não vem que não tem. Pode me chamar de Collorgiovani…
JOSÉ LUÍS REY
Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos