Um mal irrefreável
As bets deixaram há muito tempo de ser apenas uma forma de entretenimento. Tornaram-se uma questão de saúde pública, com reflexos na economia e na sociedade

Reportagem deste domingo no Diário mostra um movimento que era fácil de prever: a explosão no número de pessoas que buscam ajuda psiquiátrica para se livrar do vício em apostas online. Levantamento aponta que os casos que chegaram neste ano ao hospital Bezerra de Menezes, em Rio Preto, são próximos dos atendimentos registrados em todo o ano de 2024. Já as internações em 2026 por problemas de vício em jogos superam as de 2025.
Os números ajudam a desmontar um dos argumentos mais recorrentes utilizados para minimizar os danos causados pelas bets: o de que os casos de dependência seriam situações pontuais, restritas a pessoas sem autocontrole ou preparo emocional. A realidade demonstra exatamente o contrário. O que se vê é o avanço de um problema de saúde pública que cresce de forma acelerada e afeta indivíduos de diferentes faixas etárias, níveis de renda e graus de escolaridade.
O vício em apostas não pode mais ser tratado como simples consequência de escolhas individuais. Trata-se de uma dependência reconhecida pela medicina. Os relatos de pacientes que chegam aos serviços de saúde incluem depressão, ansiedade, insônia, isolamento social, perda de vínculos familiares e, nos casos mais graves, pensamentos suicidas. O sofrimento não se restringe ao apostador. Ele se espalha por toda a família, que muitas vezes convive com o endividamento, a quebra de confiança e a deterioração das relações pessoais.
O problema, contudo, não termina nos consultórios e hospitais. Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio estima que o varejo brasileiro deixou de movimentar mais de R$ 100 bilhões em 2024 devido ao desvio de renda para as apostas. Trata-se de dinheiro que deixou de ser utilizado na compra de alimentos, roupas, medicamentos, material escolar e outros bens essenciais. Ao mesmo tempo, cresce a inadimplência, especialmente entre as famílias de menor renda, criando um círculo perverso que reduz o consumo, prejudica empresas e compromete a geração de empregos.
As bets deixaram há muito tempo de ser apenas uma forma de entretenimento. Tornaram-se uma questão de saúde pública, com reflexos profundos na economia e na sociedade, e é necessário avançar em medidas concretas. A publicidade do setor, especialmente aquela direcionada aos jovens e vinculada a eventos esportivos, precisa ser submetida a regras muito mais rígidas. Da mesma forma, as plataformas devem ser obrigadas a adotar mecanismos eficazes de identificação de comportamento compulsivo, com limites de apostas, alertas de risco e bloqueios para usuários vulneráveis.
Campanhas de conscientização, programas de educação financeira e ações preventivas nas escolas também podem ajudar a evitar que novos apostadores caiam na armadilha da falsa promessa de dinheiro fácil.
O desafio é grande, mas a omissão custará muito mais caro. Os números já demonstram que as apostas online deixaram de ser uma questão individual para se tornar um problema coletivo, que exige resposta firme, coordenada e urgente da sociedade.