Um dever de todos
O enfrentamento da violência contra a mulher não pode ser tratado apenas como uma pauta feminina, mas é também masculina

Números divulgados pela Secretaria de Segurança Pública revelam que, no primeiro quadrimestre deste ano, a região de Rio Preto registrou 5.963 ocorrências de violência contra a mulher, uma média de quase 50 casos por dia. Ou seja, uma mulher foi vítima de algum tipo de violência a cada meia hora.
Os dados, por si só, já são terríveis, mas estão longe de retratar toda a realidade. Isso porque a violência doméstica e de gênero continua sendo um dos crimes mais subnotificados do País. Muitas vítimas permanecem em silêncio por medo, dependência financeira, vergonha, pressão familiar ou descrença na punição dos agressores. Por trás de cada boletim de ocorrência, existe a possibilidade de muitos outros casos que jamais chegam ao conhecimento das autoridades.
É importante também interpretar corretamente o aumento de 20% nos registros em relação ao ano passado. O crescimento das ocorrências não significa necessariamente que a violência esteja aumentando na mesma proporção. Pode significar que mais mulheres estão encontrando coragem, apoio e informação para denunciar seus agressores antes que a violência avance para estágios ainda mais graves.
Os próprios números sugerem essa realidade. Enquanto as denúncias de ameaças aumentaram significativamente, os casos de feminicídio e de tentativa de feminicídio apresentaram redução. Trata-se de um indicativo de que campanhas de conscientização, medidas protetivas e a atuação das instituições de segurança e justiça podem estar conseguindo interromper ciclos de violência antes que terminem em tragédia.
Mas há um ponto que frequentemente fica em segundo plano nesse debate. O enfrentamento da violência contra a mulher não pode ser tratado apenas como uma pauta feminina, mas também como uma pauta masculina. Afinal, são os homens que cometem esses crimes. São eles que precisam questionar comportamentos naturalizados, rejeitar atitudes machistas, combater a cultura da posse e do controle sobre as mulheres e não se omitir diante de amigos, parentes ou conhecidos que reproduzem esse tipo de violência. Não basta exigir que as mulheres denunciem: é necessário que os homens assumam sua parcela de responsabilidade na construção de uma sociedade mais segura e respeitosa.
O caso recente de uma mulher mantida em cárcere privado e submetida a torturas pelo companheiro, condenado a 28 anos de prisão, é um retrato extremo de uma mentalidade que ainda persiste: a de homens que enxergam mulheres como propriedade.
A região avança quando mais mulheres encontram proteção e coragem para denunciar. Mas o verdadeiro sucesso será alcançado quando esses números começarem a cair porque a violência deixou de acontecer - e não porque deixou de ser registrada. Até lá, o enfrentamento desse problema continuará sendo uma tarefa urgente de todos, mulheres e homens.