Trilogia da mentira
A pré-mentira, as fake news e a pós-verdade formam um círculo vicioso de desinformação

“Quando a verdade deixa de ser critério, qualquer versão basta.” (Frase atribuída a Luiz Felipe Pondé.)
As redes sociais exercem hoje um impacto profundo no cenário digital, desafiando sensos e consensos tradicionais, deixando para trás os tempos em que a lógica clássica sustentava a distinção entre o falso ou verdadeiro com base em evidências ou fatos. Vivemos a era da “pós-verdade”, um contexto em que fatos objetivos cedem espaço a apelos emocionais ou crenças confortáveis, terreno fértil para influenciar a opinião pública, sobretudo quando contam com a “pré-mentira” e as fake news como coadjuvantes.
Aliás, cabe destacar, a “pré-mentira”, prima-irmã da pós-verdade, é uma estratégia sofisticada de manipulação da realidade, assumindo o papel de ardiloso “batedor” da pós-verdade (aquele que abre caminho para os que o seguem). Tem por finalidade criar, por antecipação, um cenário de desconfiança propício à aceitação de falsas narrativas, antes mesmo que elas sejam plenamente formuladas. Já as fake news (das quais se valem tanto a pré-mentira quanto a pós-verdade) são conteúdos falsos, fraudulentos ou enganosos em si mesmos, disseminados como se fossem genuínos, explorando preconceitos e animosidades para influenciar a opinião pública.
Historicamente, a pré-mentira encontra ecos na chamada "engenharia do consentimento", de E. Bernays (1891-1995), figura central na propaganda do governo norte-americano durante a 1ª Guerra Mundial. Bernays teria se apoiado em conceitos da teoria da psicanálise de S. Freud (de quem era sobrinho) para aprimorar técnicas de persuasão em massa. Outra referência marcante à pré-mentira surge na estratégia de propaganda de Hitler, exposta em Mein Kampf, de 1925. O conceito pode ser identificado em seus discursos, destinados a construir a realidade distorcida sobre a qual se assentou o nazismo.
Assim, a pré-mentira, as fake news e a pós-verdade formam um malfadado círculo vicioso de desinformação, uma verdadeira trilogia contemporânea da mentira.
Em tempo. Um exemplo histórico emblemático de pré-mentira pode ser observado no Golpe de Estado no Irã, em 1953, que resultou na queda do premiê Mohammed Mossadegh. Estados Unidos e Reino Unido difundiram rumores de uma grave ameaça comunista em seu governo, criando um clima de medo que facilitou o retorno do Xá Mohammad Reza Pahlavi ao poder.
Já quanto às fake news, um caso dramático ocorreu no Brasil, em 2014, provocando uma verdadeira tragédia. Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, casada e mãe de duas crianças, foi linchada até a morte por moradores do Guarujá (SP), após ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças. Um retrato falado, produzido dois anos antes, circulava nas redes sociais, alimentando o boato que culminaria em sua morte.
Eurípides A. Silva
Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp em S. J. do Rio Preto.