Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
PAINEL DE IDEIAS

Torcida, nossa especialidade

Nesse pós-eliminação, é possível refletir sobre a matéria-prima de que somos feitos. Mais que a pátria das chuteiras, somos, antes de tudo, a pátria da torcida

por Sérgio Clementino
Publicado em 13/07/2026 às 18:18Atualizado em 13/07/2026 às 18:19
Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
Galeria
Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
Ouvir matéria

Passado o luto pela eliminação na Copa, o país mergulha num silêncio de fim de feira. Nesse pós-eliminação, é possível refletir sobre a matéria-prima de que somos feitos. Mais que a pátria das chuteiras, somos, antes de tudo, a pátria da torcida. Se você olhar para o resto do planeta, o mundo hispânico fala em hinchas, os anglo-saxões gritam como fans ou supporters, e os italianos se fantasiam de tifosi, uma alusão à febre do tifo. Absolutamente ninguém fora das nossas fronteiras linguísticas usa o ato físico de apertar e virar um objeto como metáfora para o amor a um time. Essa jabuticaba semântica só existe no português do Brasil.

A palavra torcida surgiu no Rio de Janeiro dos anos 1920. Nas arquibancadas aristocráticas das Laranjeiras, as senhoras da alta sociedade assistiam aos jogos de luvas de seda e lenços finos. Quando o jogo apertava e o gol teimava em não sair, a angústia se materializava nos dedos: elas retorciam e espremiam seus lenços elegantes. O cronista Coelho Neto, com os olhos atentos de quem lia a alma humana, batizou aquele mar de aflição de "as torcedoras".

O mais poético (ou talvez trágico) desse vocábulo é a sua capacidade de migrar. Em 1950, o Brasil viveu o Maracanazo, nossa maior tragédia futebolística. Justamente naquele ano de lágrimas, marinheiros e estudantes iugoslavos, fascinados pelo espetáculo humano das arquibancadas cariocas, levaram o termo na bagagem e fundaram, na Croácia, a Torcida Split, que depois ecoaria nos Bálcãs até a Torcida Sandzak, formada por bósnios. Rompendo barreiras linguísticas, os eslavos mantiveram o nome original. No idioma deles, torcedor é navijac, mas a instituição, a força coletiva, continuou sendo, inclusive até hoje, a "Torcida".

O brasileiro tomou tanto gosto pelo verbo torcer que, vez em quando, transporta essa expertise de arquibancada para a pólis. Na política, não debatemos. Torcemos. Abandonamos a escolha racional, o escrutínio dos fatos e a frieza dos dados para vestir camisas partidárias como se fossem de times. O adversário político vira o rival do clássico de domingo. Na cabine de votação, o cidadão aperta o botão com o mesmo fígado com que grita um gol, esperando o milagre da salvação ou a ruína do outro lado.

Ao fim e ao cabo, essa eliminação na Copa nos devolve à verdade nua do espelho. Olhamos para as mãos vazias e percebemos que Coelho Neto estava coberto de razão: torcer é, fundamentalmente, sofrer. É submeter as próprias esperanças à torção das circunstâncias. Por isso mesmo, com o apito final ecoando nossa ressaca esportiva, talvez seja boa hora para desviar os olhos do gramado. É momento de voltarmos a olhar para aquilo que realmente importa, para as coisas pelas quais torcemos e sofremos além das quatro linhas: as nossas dores cotidianas, os afetos reais e as batalhas invisíveis que travamos longe dos holofotes. Afinal, quando o estádio se esvazia, o tecido que continua sendo retorcido pelas mãos do destino é o da nossa própria realidade.

SÉRGIO CLEMENTINO

Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras.