Sororoca
Hoje, a morte foi escondida dentro dos hospitais. Antigamente, ela era vizinha

Nos tempos de antigamente, o caboclo se embrenhava mata adentro desafiando o desconhecido. O destino era o que a foice abria: uma clareira, um ranchinho de sapé e a esperança plantada no chão bruto. Ali, a família se abrigava dos bichos e das chuvaradas, mas ficava à mercê de um isolamento severo. Médico por aquelas bandas era mais raro que saci de duas pernas.
Por força da necessidade, a arte de curar era um patrimônio passado no pé do ouvido, dos antigos aos mais novos. A farmácia era a própria mata: raízes, cascas, folhas e cipós. Mas, quando a doença era "braba" e os chás já não faziam efeito, o benzedor baixava a guarda, olhava para o teto de palha e sentenciava com a humildade de quem conhece o limite humano: “Entrego nas mãos de Deus”. E o infeliz, como se dizia no linguajar caboclo, acabava por bater com as dez.
Ainda guardo na memória, com a nitidez de uma pintura, um episódio de quando eu era pequeno. Minha avó — mulher de uma sensibilidade que parecia ler o invisível — chegou em casa já na boca da noite. Tinha ido visitar um vizinho que definhava há dias. Meu pai, preocupado, perguntou como estava o enfermo. A resposta dela veio seca, sem rodeios, mas carregada de uma certeza ancestral: “Dessa noite ele não passa. Já está com a sororoca”.
Aquela palavra estranha grudou na minha mente feito cola de sapateiro. Naquele tempo, criança não se intrometia em assunto de gente grande, então guardei o termo no fundo do baú da infância. Anos depois, a curiosidade me levou ao dicionário. Li que a "sororoca", ou o ronco da morte, é a respiração ruidosa causada pelo acúmulo de secreções quando o corpo já não tem mais forças para engolir ou tossir. É o sinal biológico de que o fim da jornada é iminente.
Fiquei pensando: como os antigos sabiam disso sem nunca terem aberto um compêndio de medicina? A resposta está na convivência. Hoje, a morte foi escondida dentro dos hospitais, atrás de biombos e máquinas. Antigamente, ela era vizinha. As pessoas nasciam, sofriam e partiam dentro de casa, sob os olhos de todos. A sabedoria popular não precisava de diplomas para identificar os sinais do corpo; ela tinha a experiência do cotidiano e a intuição aguçada pela observação da natureza.
Eles não conheciam a fisiologia, mas reconheciam o som. A sororoca era o último aviso da partida, o derradeiro suspiro de quem, cansado da lida, ouvia o chamado para o descanso eterno. É a ciência do vivido, que nenhum livro consegue explicar com tanta precisão quanto o silêncio de uma avó sensitiva no cair da tarde.
Jocelino Soares
Artista plástico, pós-graduado Arte-educação. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.