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Sírios-libaneses de Rio Preto ensinam ao mundo

por Jurandyr Bueno
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Jurandyr Bueno (Jurandyr Bueno)
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Há cidades que nascem de decisões administrativas. Outras, mais raras, emergem de movimentos humanos mais profundos: deslocamentos, diásporas, recomeços. São José do Rio Preto pertence a essa segunda linhagem. Seus 174 anos não celebram apenas uma fundação geográfica, mas a consolidação de uma escolha histórica: abrir-se ao mundo – e, com isso, transformar-se.

Grande parte dessa transformação tem origem em mãos vindas do Levante. Sírios e libaneses que chegaram ao interior paulista no final do século XIX e início do século XX não trouxeram apenas disposição para o trabalho. Trouxeram uma lógica. Um modo de operar que desloca o eixo da economia da terra para o fluxo, da tradição para a oportunidade, do isolamento para a circulação.

Essa diferença não é retórica. É estrutural.

Enquanto parte do interior paulista se organizava em economias protegidas, muitas vezes dependentes de relações fechadas e avessas à concorrência, Rio Preto incorporava uma dinâmica distinta. Onde havia resistência, esses imigrantes enxergavam expansão. Onde havia medo, identificavam mercado.

Não se trata de exaltar sobrenomes – embora Homsi, Andaló, Bassitt, Munia, Kfouri, Cury, Chueire, Jorge, Feres/Fares, Anbar, Mourad, Sabbag, Efraim, Haddad, Tarraf e tantos outros sejam parte incontornável dessa história. O ponto decisivo está naquilo que esses grupos construíram de forma quase invisível: uma engrenagem social baseada em confiança, cooperação e reputação. O crédito circulava dentro da comunidade. O risco era compartilhado. O sucesso, multiplicado.

Foi esse modelo que permitiu algo raro no interior brasileiro: escala.

Rio Preto deixou de ser apenas mais uma cidade para se tornar um centro regional de comércio e serviços. Mais do que se integrar, esses grupos reconfiguraram o ambiente ao seu redor, expandindo horizontes econômicos e introduzindo uma cultura de abertura que, com o tempo, deixou de ser característica de uma comunidade para se tornar identidade da própria cidade.

É aqui que a história local ganha contorno global.

Em um mundo que volta a se fragmentar – intoxicado por discursos travestidos de ‘nacionalismo’ e frequentemente mobilizados para legitimar exclusões, por guerras identitárias e pela desconfiança crescente em relação ao estrangeiro –, a experiência de Rio Preto expõe uma verdade incômoda: foi justamente a presença do “outro” que ajudou a construir prosperidade.

Ao longo de décadas, Rio Preto demonstrou que diversidade não precisa ser tolerada como problema. Pode – e deve – ser cultivada como estratégia. Os sotaques se misturaram, os hábitos se cruzaram, os negócios se multiplicaram.

Celebrar os 174 anos desta metrópole, portanto, não é apenas um gesto de memória. É um exercício de honestidade intelectual. É reconhecer que sua vitalidade econômica, sua vocação empreendedora e sua capacidade de adaptação não surgiram por acaso, mas foram construídas – em grande medida – pelos imigrantes como força estruturante.

Num tempo em que o mundo parece reaprender, da forma mais dura, o custo da intolerância, nossa história deixa de ser apenas exemplar. Torna-se urgente.

O planeta já não carece de diagnósticos. Carece de lucidez.

Ignorar lições como a de São José do Rio Preto não é mais um erro de interpretação histórica. É uma decisão. E decisões, quando tomadas contra a evidência, cobram seu preço.

Jurandyr Bueno

É jornalista e especialista em Relações Governamentais e projetos para o Terceiro Setor