Olhar 360

Shakespeare e Trump

Trump parece reunir características personagens de Shakespeare. E, como eles, pode caminhar rumo à própria derrocada diante das tensões que ajudou a intensificar

por Andrew Okamura Lima
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
Andrew Okamura Lima (Andrew Okamura Lima)
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O presidente Donald Trump vem ditando o tom acerca da guerra contra o Irã. Em um primeiro momento, o conflito ocorreria de forma rápida, sem grandes intempéries, em apenas “alguns dias”, como o próprio presidente afirmou. Contudo, após mais de um mês de confrontos, os resultados começaram a aparecer não apenas no cenário internacional, mas também na própria economia norte-americana.

O aumento no preço dos combustíveis, que superou os 4 dólares por galão – o maior patamar desde 2022 –, fez com que a meta inflacionária dos Estados Unidos fosse revista para 4,2% ao ano. Números à parte, o fato é que o custo de vida na terra do Tio Sam subiu de maneira mais acelerada do que o previsto, o que gerou descontentamento popular com a atual administração. Como evidência disso, pesquisas recentes indicam que o atual mandatário conta com apenas 33% de aprovação, enquanto sua rejeição se aproxima de 60%.

Esses números negativos refletem uma política que não privilegia o cidadão norte-americano, mas sim interesses distantes da realidade interna do país. Os impactos dessa estratégia poderão ser observados com maior clareza no segundo semestre, durante as eleições de meio de mandato, nas quais diversas agências de pesquisas eleitorais apontam para uma possível vitória, relativamente folgada, dos democratas em ambas as casas legislativas.

Diante da iminente derrota no Legislativo, Trump busca criar barreiras eleitorais, como a alteração do sistema de votos pelo correio e o redesenho de distritos eleitorais republicanos, com o objetivo de ampliar a representação do partido no Congresso. Independentemente dessas manobras de caráter questionável, a reposta de uma parcela crescente do eleitorado já se manifesta por meio de grandes mobilizações populares.

Mais do que isso, Trump parece conduzir a um processo de exaurimento da própria civilização ocidental, que, há séculos, se organiza em torno de convenções e normas internacionais. Em sentido oposto, observa-se nele um tom quase shakespeareano, marcado por traços megalomaníacos semelhantes aos de Júlio César ou do Rei Lear.

Em publicações recentes em sua rede social, Trump reforça seu desprezo pela diplomacia ao afirmar que “todos aqueles países que não conseguem obter combustível de aviação por causa do Estreito de Ormuz (...) tenho uma sugestão (...) comprem dos Estados Unidos, temos bastante, e (...) desenvolvam alguma coragem atrasada, vão ao Estreito e simplesmente tomem”. Com isso, retoma-se a lógica de política bélica típica dos séculos XVI e XVII, quando os conflitos em águas internacionais eram recorrentes no mundo ocidental.

No caso específico do Irã, Trump pareceu ignorar as complexidades daquele país. Agiu, instigado por Israel, para ingressar em um conflito que poderia ter sido resolvido por vias diplomáticas, desencadeando uma crise de escala global, cujo desfecho, agora, se torna cada vez mais difícil sem que haja um custo político ainda maior para sua popularidade.

Diante da resistência iraniana, Trump – talvez surpreendido por uma avaliação equivocada da capacidade militar daquele país –, passou a pressionar por apoio das nações europeias, que de forma prudente recusaram uma participação direta no conflito. Além disso, a escassez de petróleo e a alta dos preços permitiram que a Rússia retomasse espaço no mercado internacional. Um cenário no mínimo contraditório para quem se apresenta como defensor da democracia e, ao que tudo indica, mantém uma relação próxima com o presidente Vladimir Putin.

Caminhamos, assim, para um contexto já conhecido na literatura: o de Júlio César, cuja empáfia e senso de invulnerabilidade contribuíram para sua queda; ou o de Rei Lear, que, tomado pela vaidade, exigiu provas exageradas de amor e recusou críticas, conduzindo-se à própria ruína.

Talvez o mesmo destino aguarde Trump. Em sua complexa caminhada política, ele parece reunir características de ambos os personagens de Shakespeare. E, como eles, pode caminhar rumo à própria derrocada diante das tensões que ajudou a intensificar.

Andrew Okamura Lima

Historiador e filósofo