Sensação de enganação
Há algum tempo, políticos e “formadores de opinião” passaram a usar um truque semântico para minimizar problemas: a expressão "sensação de" virou o curinga da oratória

Dia desses meu filho virou a tela do celular pra mim e apontou para um anúncio de um tênis de grife famosa, com preço lá em baixo. "Pai, olha essa promoção... esse tênis deve ser “sabor” Nike, né?". Levei um segundo para processar. Descobri que a gíria corre entre a molecada (se é que ainda se usa a palavra "gíria" sem parecer um fóssil). Chamar algo de "sabor" virou o código para o que é falso, pirata ou forçado. O anúncio da loja duvidosa, a raspadinha de morango que não tem uma única fruta ou o lanche de picanha que não tem picanha. É puro deboche, uma brincadeira espontânea para desmascarar aquilo que finge ser o que não é. A garotada não usa a palavra para enganar ninguém, usa para dar risada da farsa.
O diabo é quando os homens públicos resolvem apropriar-se do mesmo expediente, mas com a agulha voltada para o rumo oposto. Ao contrário dos meninos, a intenção não é revelar a falsidade, mas esconder o que está saltando aos olhos. Há algum tempo, políticos e “formadores de opinião” passaram a usar um truque semântico para minimizar problemas: a expressão "sensação de" virou o curinga da oratória. O cidadão vai ao supermercado, deixa metade do salário em três sacolinhas de plástico e reclama com razão. Mas logo surge a comentarista de TV a pacificá-lo com a boa doutrina: não há inflação, o que há é tão somente uma "sensação de preços altos". Você evita sair de casa à noite, olha para os lados ao parar no sinal e tranca todas as portas. Bobagem sua: a criminalidade não subiu, trata-se meramente de uma "sensação de insegurança".
A engenharia de linguagem é notável. Enquanto a molecada usa "sabor" para ridicularizar o fake, a política apropria-se da "sensação de" para anestesiar a realidade. É a tentativa burocrática de transformar um fato, doloroso e palpável, em mero delírio coletivo. A realidade vira opinião, e a dor vira sintoma de desinformação. O abismo entre a vida real e o discurso oficial é maquiado por um malabarismo gramatical que tenta nos convencer de que não devemos acreditar nos nossos próprios olhos. Se a dor do povo não cabe na estatística do governo, desmente-se a dor e absolve-se a estatística.
A língua, esse organismo vivo e caprichoso, presta-se assim a dois mestres. Na boca dos jovens, renasce com ironia e leveza, servindo como uma lente que amplia a verdade com bom humor. Na boca daqueles que buscam o poder, vira uma cortina de fumaça, desenhada para manipular a percepção e abafar o grito de quem sente a dor no bolso e na pele.
Com as eleições de outubro batendo à porta, o horário eleitoral vai inundar nossas salas com discursos impecáveis e promessas reluzentes. Devemos exercitar o papel de críticos dessa grande encenação. Cabe a você, leitor de boa-fé, apurar o ouvido e não se deixar lograr pelo canto das sereias. Diante dos tribunos que tudo resolvem e de tudo sabem, convém ter o espírito alerta para separar o administrador de mérito daquele que é, no fundo, apenas um "sabor gestor".
SÉRGIO CLEMENTINO
Promotor de Justiça em Rio Preto.
Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras