Seguimos discutindo o óbvio
Muitos adolescentes encontram acolhimento em comunidades digitais dedicadas à misoginia

Toda vez que uma mulher é violentada, estuprada ou assassinada, a pergunta costuma ser a mesma: “O que ela estava fazendo ali? Como estava vestida? O que será que ela fez?”. A culpa, quase sempre, recai sobre a vítima. Em vez de apontarmos para a lentidão do sistema, as falhas institucionais ou para um lugar ainda mais invisível, insistimos em julgar quem sofreu a violência. Mas o que deveria nos preocupar é como estamos formando os homens que amanhã ocuparão esses espaços.
Os índices crescem e o Brasil continua enterrando mulheres, apesar de possuir um dos marcos legais mais avançados no combate à violência de gênero, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. Ainda assim, enfrentar a misoginia continua sendo um desafio. A aplicação das leis esbarra na lentidão institucional, na falta de estrutura e na ausência de prioridade política.
Nenhum homem nasce odiando mulheres. O desprezo é aprendido. É transmitido em conversas de família, piadas, músicas, vídeos, influenciadores e comunidades virtuais que transformam ressentimento em identidade. Aprende-se quando um menino escuta que “homem de verdade manda”, que sensibilidade é fraqueza e que mulheres existem para validar sua masculinidade, construída durante décadas sobre a ideia de dominação. O problema é que as mulheres deixaram de aceitar esse lugar.
É nesse vazio que muitos adolescentes encontram acolhimento em comunidades digitais dedicadas à misoginia. Fóruns e redes sociais oferecem respostas fáceis para frustrações típicas da idade. A rejeição, a insegurança e a solidão passam a ser atribuídas às mulheres. O ressentimento encontra uma explicação conveniente: “elas são o problema”. Quanto mais esse conteúdo é consumido, mais a desigualdade parece justiça e o controle parece amor.
Não é coincidência que esses espaços utilizem linguagem de guerra. Fala-se em “retomar o lugar”, “recolocar a mulher no seu devido lugar” e “combater o feminismo”. O adversário deixa de ser uma ideia e passa a ser um grupo inteiro de pessoas.
Enquanto continuarmos tratando o problema apenas no momento do assassinato, continuaremos chegando tarde. O feminicídio começa muito antes. Começa quando o desprezo às mulheres é tratado como brincadeira, quando o controle é confundido com amor e a violência é relativizada. É nesse ambiente que o ódio encontra espaço para se organizar e recrutar.
Se queremos reduzir esses números, não basta endurecer penas. É preciso fazer as leis saírem do papel, fortalecer a rede de proteção, investir em prevenção e enfrentar a misoginia na sua origem. Nenhuma sociedade conseguirá proteger suas mulheres enquanto continuar formando homens para exercer poder sobre elas. A violência não começa com a faca ou com o tiro. Ela começa na cultura. E é lá que precisamos ter coragem de agir.
Erika Bismarchi
Assistente social, especialista em Políticas Públicas, fundadora da Maria Violeta e membra do Coletivo Mulheres na Política.