Se você construir, a sustentabilidade virá
Três lançamentos em uma semana mostram que, quando o governo cria a política certa, a indústria responde. E o etanol sai na frente na corrida pela descarbonização

Quem se lembra do filme “Campo dos Sonhos”, de 1989, em que Kevin Costner faz o papel de um fazendeiro que, após ouvir vozes do além, decide transformar parte de sua plantação de milho em um campo de beisebol, atraindo jogadores fantasmas do passado? Talvez, se estivesse no Brasil de hoje, ele pensaria duas vezes antes de diminuir sua colheita de milho que poderia muito bem se transformar em etanol.
Pois, no Brasil de 2026, a famosa frase do filme “Se você construir, ele virá” faz todo o sentido para os envolvidos com a formulação de políticas públicas voltadas para a descarbonização da mobilidade e o mercado automobilístico. Em vez de promessas abstratas, políticas como a Lei do Combustível do Futuro e o Programa Mover trouxeram um roteiro com todos os elementos para ser um campeão de bilheterias. E estamos vendo os frutos começarem a chegar.
Em apenas uma semana de junho, três lançamentos reposicionaram o etanol no centro da estratégia das montadoras. A Chevrolet apresentou o Onix Eco 2027, primeira versão exclusiva com etanol desde a popularização dos motores flex, desenvolvida para se enquadrar nos benefícios tributários do Programa Mover, reduzindo o preço ao consumidor e zerando as emissões de CO₂ fóssil. A emissão poço-a-roda cai em cerca de 70% frente ao modelo a gasolina.
Já a BYD lançou o Atto 2 DM-i Flex, SUV híbrido plug-in com motor 1.5 flex, produzido em Camaçari, adaptado ao combustível nacional. A GWM apresentou o Haval H6 com motor flex, tornando-o o primeiro híbrido plug-in de produção nacional com essa compatibilidade. Iniciativas que foram ao encontro do pioneirismo da Toyota em lançar na versão híbrida flex os modelos Corolla em 2019, Corolla Cross em 2021 e Yaris Cross em 2025.
Montadoras de origens e segmentos distintos fazendo anúncios em torno do etanol não é obra do acaso. Por trás dos projetos, está uma política pública estruturada, que cria incentivos reais para a indústria investir em soluções alinhadas às vantagens da evolução energética brasileira.
Nesse contexto, ganha ainda mais relevância um estudo publicado pela FGV e Unicamp, chamado “Do berço ao portão”, que analisou a pegada de carbono da produção de veículos leves fabricados no Brasil, da extração de matéria-prima até a saída da fábrica. Os resultados são reveladores. A fabricação de um SUV elétrico emite mais do que o dobro do CO₂ equivalente do que a produção de um SUV a combustão: 12.500 kg contra 5.366 kg. No caso dos sedãs, a disparidade é maior: 16.200 kg para o elétrico, contra 4.745 kg para o modelo a combustão.
O estudo calculou também o ponto de equilíbrio ambiental, ou seja, a quilometragem a partir da qual o elétrico compensa a diferença de emissões gerada na fabricação. Frente ao veículo flex, esse ponto é de 93 mil km. Frente ao veículo abastecido exclusivamente com etanol, o número sobe para 400 mil km. O pior caso é o do elétrico fabricado na China, onde a fonte de energia é o carvão.
O etanol oferece uma trajetória de descarbonização imediata. Os lançamentos recentes mostram que o mercado entendeu isso.
Jacyr Costa Filho
É vice-presidente do Cosag - Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e sócio da consultoria Agroadvice