Saúde pública: quando até o certo dá errado!
Nem o imediato esclarecimento do Instituto Butantan conseguiu conter o estrago

A recente suspensão temporária da vacina Butantan-DV contra a dengue, após o registro de eventos adversos graves - entre eles duas mortes em um universo de 500 mil doses - reacendeu um velho dilema: estamos diante de um efeito da vacina ou de uma coincidência inevitável?
É para responder a esse tipo de pergunta que surge a farmacovigilância, ciência cujo papel é investigar, com rigor, se há relação de causalidade (quando um componente biológico é responsável direto pelo efeito adverso) ou mera coincidência temporal (quando o evento ocorreria de qualquer modo, independentemente da vacinação). Em última instância, trata-se de garantir que os benefícios de uma intervenção em saúde pública superem os seus riscos, com ampla margem de segurança. Quando se trata de vacinas, esse critério é aplicado com mais rigor ainda, porque são administradas em pessoas saudáveis para prevenir doenças.
O problema é que, antes mesmo de qualquer conclusão, uma velha conhecida costuma entrar em cena: a desinformação. Nas redes sociais, por exemplo, surgem insinuações de que a população estaria sendo usada como cobaia. No caso, nem o imediato esclarecimento das autoridades e do Instituto Butantan, atestando a segurança e a eficácia do imunizante, conseguiu conter o estrago. Boatos voam e, quando agem sobre o comportamento coletivo, reduzem a adesão às campanhas de vacinação, fragilizando a imunidade de grupo.
Não é a primeira vez. Basta lembrar o episódio ocorrido na Inglaterra, há cerca de três décadas, quando um estudo fraudulento sugeriu uma ligação entre o autismo e a vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola). Quando a fraude foi desmascarada, o estrago estava feito: a desconfiança se espalhou, as taxas de vacinação caíram e doenças antes controladas, como o sarampo, voltaram a circular em surtos violentos.
Talvez por isso a história da saúde pública seja rica de paradoxos. No início do século passado, durante um surto de peste bubônica no Rio de Janeiro, o sanitarista Oswaldo Cruz convenceu a prefeitura a eliminar os ratos, pagando por cada animal capturado; a ideia era acabar com o vetor da doença. Com isso, pessoas interessadas no lucro fácil inventaram uma nova profissão, “criadores domésticos de ratos”. Porém, ao descobrir a fraude, a prefeitura interrompeu a compra e o inevitável aconteceu: da noite para o dia, milhões de ratos foram simplesmente abandonados nas ruas, reavivando a peste que se pretendia combater...
Por fim, entre vacinas e roedores, ciências e boatos, fica a lição. Na gestão da saúde pública, não basta acertar a estratégia, é preciso também prever como a sociedade reagirá a ela. Porque, às vezes, “até quando dá certo, dá errado”!
Eurípides A. Silva
Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp em S. J. do Rio Preto.