Rizomas
É preciso regar e adubar ideias, fazer ajustes e sustentá-las quando o tempo ruim não dá trégua

Uma antiga lenda japonesa conta que o bambu demora cinco anos para romper o solo. Neste período, ele se concentra em fortalecer e espalhar seus rizomas, formando uma estrutura forte que se multiplica incansavelmente para sustentar uma das plantas mais estáveis de toda a humanidade, mesmo que do lado de fora nada seja visível.
Assim também é a vida de quem decide construir um projeto a longo prazo.
É preciso organizar, regar e adubar ideias, fazer ajustes e sustentá-las quando o tempo ruim do lado de fora não dá trégua.
Grandes pensadores como Deleuze e Guattari encontraram nos rizomas uma imagem poderosa para explicar a vida, o pensamento e a construção das coisas.
Para eles, o rizoma não cresce como uma árvore, preso a um único tronco ou a uma única raiz. Ele se espalha em silêncio, cria conexões, atravessa caminhos e se fortalece justamente pela multiplicidade de seus vínculos, usando essa imagem para pensar conhecimento, sociedade, cultura e vida como redes de conexões em movimento.
Talvez por isso essa imagem seja tão bonita para falar de projetos que nascem pequenos, mas que vão criando raízes, relações e sentidos antes de aparecerem ao mundo.
Em tempos de recompensas instantâneas, falar sobre projetos longos soa até inadequado. Parece irreal que alguém decida esperar tanto para colher os frutos de um trabalho feito para durar. É por isso que estamos todos ansiosos. Deixamos de lado projetos e sonhos que demandem praticar a nossa paciência.
E é nesse pensamento que me demoro. Às vezes a vida corrida que levamos nos tira o prazer de regar nossos sonhos, sem esperar que eles aconteçam imediatamente.
Se, por um lado, se dedicar a um projeto longo que se ramificará é preciso, também é necessário deixar esse broto romper o solo quando chegar a hora.
Há um momento em que a ideia precisa romper o silêncio, encontrar o mundo, tocar pessoas e cumprir o propósito para o qual foi semeada.
Talvez esse seja o nosso convite: olhar com mais carinho para aquilo que ainda está crescendo em silêncio. Apoiar projetos que fortalecem nossas raízes, valorizar as conexões que sustentam nossa comunidade e participar da construção de projetos duradouros.
Afinal, nenhum rizoma cresce sozinho. Toda raiz precisa de terra, cuidado e relação.
E todo projeto que deseja transformar uma cidade, uma comunidade ou uma vida precisa de pessoas dispostas a caminhar junto. Que possamos, então, sustentá-los!
Jéssica Christan Silva e Soares
Mãe, advogada, membra do Coletivo Mulheres na Política.