Rio Tietê, verde de vergonha
A degradação das prainhas do rio Tietê exige ações concretas. A população já não aceita discursos repetidos nem desculpas para um problema conhecido há anos

Reportagem publicada pelo Diário da Região na edição de ontem mostra que o retrato das prainhas do rio Tietê na região de Rio Preto é mais do que um alerta ambiental. É a confirmação de um problema antigo que, ano após ano, continua sendo tratado com discursos, reuniões e promessas, enquanto a degradação avança. As imagens da água tomada pela "nata verde" e a classificação de três prainhas como impróprias para banho escancaram uma realidade que já não admite justificativas.
Não faltam diagnósticos. Há anos especialistas apontam a eutrofização causada pelo lançamento de nutrientes, pela deficiência no tratamento de esgoto e pelo carreamento de resíduos das atividades agrícolas. Também não faltam audiências públicas, frentes parlamentares e anúncios de estudos. O que permanece insuficiente é a capacidade de transformar conhecimento em ações concretas e permanentes.
A tecnologia pode ser uma aliada importante. As boias inteligentes instaladas em caráter experimental representam uma iniciativa interessante. Mas soluções pontuais jamais substituirão políticas públicas estruturantes, fiscalização eficiente, recuperação ambiental e investimentos contínuos em saneamento. O problema nasce muito antes de a água ficar verde.
É igualmente preocupante que autoridades ainda discutam medidas consideradas urgentes há tantos anos. O tratamento mais avançado dos efluentes e práticas agrícolas que reduzam o transporte de nutrientes para os rios deveriam estar consolidados, e não apenas em fase de debate legislativo. Cada temporada perdida significa mais prejuízo ao meio ambiente, ao turismo, à economia regional e à saúde da população.
A crítica feita por ambientalistas sobre a redução da fiscalização merece reflexão. Satélites, drones e inteligência artificial ampliam a capacidade de monitoramento, mas não substituem a presença do Estado onde a infração acontece. Detectar o problema sem combatê-lo apenas torna a omissão mais sofisticada.
Chegou o momento de substituir a retórica pela efetividade, apresentar metas, prazos, responsabilidades e resultados mensuráveis. Não basta anunciar investimentos ou criar grupos de trabalho. Quem frequenta as prainhas e vive às margens do rio espera mudanças perceptíveis, e não apenas novos comunicados oficiais.
O cidadão já não tolera discursos bem elaborados desacompanhados de providências reais. Mais do que isso, merece que se respeite sua capacidade de discernimento. A sociedade sabe distinguir quem apenas fala de quem efetivamente enfrenta os problemas. E é justamente essa diferença que definirá o futuro do Tietê e da qualidade de vida de toda a região.