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ARTIGO

Reflexões ao acaso

Sabermos tudo, sem que saibamos nada da essência do nosso pretenso saber

por Wilson Daher
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
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Se alguém estiver lendo esta crônica, pondero que, por vezes, tenho alguns momentos de reflexões espontâneas, ao acaso, sem a pretensão de grandes voos. Apenas divagando. Aconteceu assim, no momento em que lia uma determinada obra literária de um teor mais profundo sobre traumas, perdas e literatura, que buscava interpretar lutos coletivos ou individuais de uma maneira meticulosa, com abundância de citações de alguns autores consagrados, o que enriqueceu sua obra de forma essencial.

Sempre me senti um curioso em busca de conhecimentos vários, ligados às áreas de literatura, sociologia, filosofia e, como psiquiatra aposentado, aos temas mais relevantes sobre cérebro e mente. Esta palavra (curioso) me deu um tranco súbito, pois me lembrei do filósofo alemão do século XX, Martin Heidegger, quando da análise existencial do indivíduo, do ser em si inserido no mundo em virtude de uma facticidade (com o perdão da filósofa e amiga Isabel, por pequena invasão em sua área), pois estamos no mundo sem que o tenhamos pedido. Nosso destino de vir e ir.

Na sua analítica existencial, Heidegger deixa clara a sua interpretação da curiosidade, primeiramente como sendo um fenômeno do cotidiano, de forma naturalmente normal: curioso para saber sobre quem ganhou no jogo de ontem, o que nos foi preparado para o jantar, enfim, toda a curiosidade em torno dos acontecimentos em nossa jornada habitual. Mas a estocada fulminante que ele nos dá é quando analisa a curiosidade de forma existencial, dando a ela um significado constrangedor e revelador de nossa inautenticidade: sabermos tudo, sem que saibamos nada da essência do nosso pretenso saber.

Pensei em mim mesmo, onde me colocaria em face desta interpretação, se autêntica ou inautenticamente. Por vezes, me flagro com ares de um saber maior ante os mais incautos, me sinto até envaidecido pelos múltiplos elogios que recebo sem me dar conta, conscientemente, da rasura de meu conhecimento.

Em tempos idos, tive a oportunidade de conviver com intelectuais de ponta, como Alejandro Caballero, Alfredo Leme Coelho, Salvatore D’Onofrio, Coronado e outros, professores e filósofos de intenso saber. Eles tinham, segundo eu percebia, o conhecimento essencial, de profundidade, mas não alardeavam de forma ostensiva, eram discretos e a isto eu chamo de sabedoria existencial, no sentido de saber como fazer divagações ou conversas ostensivas sobre sua cultura.

Aqui estou citando Heidegger, mas o que sei sobre ele, se não estas pequenas elucubrações filosóficas acima ditas? Devo admitir que sei, em profundidade, muito pouco para me atrever a discuti-o em ambiente cultural. Mas ainda citando-o, queria dizer sobre o que ele afirma sobre o tema chamado Projeto, que é o nosso Poder-Ser: somos lançados, projetados para a possibilidade de um futuro maior, de forma autêntica.

Ouço de alguns orientadores de pós-graduação, que candidatos ao mestrado ou doutorado têm camuflado em suas dissertações os dados da Inteligência Artificial. Podem até, com essa ferramenta, obter acertos de dados, o que me parece importante, mas a essência dos temas se perde, com certeza, na ausência de suas reflexões pessoais. É, isto é um mero exemplo da curiosidade não essencial e inautenticidade heideggeriana.

Wilson Daher

Psiquiatra, mestre e doutor pela Famerp. Cronista e escritor eventual. Membro acadêmico da Arlec.