Que tipo de civilização queremos ser?
Quantas vidas poderiam ser salvas se a humanidade investisse na cura com a mesma paixão com que investe na guerra?

Há uma cena que se repete em silêncio nos lares do mundo inteiro. É o momento em que uma família recebe um diagnóstico difícil. O nome de uma doença. A incerteza. A busca por um tratamento, por uma esperança…
Enquanto isso, em mesas de mármore e salões de vidro, líderes globais discutem com naturalidade o aperfeiçoamento de novas armas, a ampliação de arsenais, a coreografia geopolítica da destruição.
E uma pergunta, incômoda e essencial, permanece ausente do debate público: quantas vidas poderiam ser salvas se a humanidade investisse na cura com a mesma paixão com que investe na guerra?
O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) nos entregou um dado que deveria nos envergonhar como espécie: em 2023, o planeta gastou cerca de US$ 2,44 trilhões em despesas militares. O maior valor já registrado na história da humanidade.
Traduzamos essa abstração em algo que possamos sentir: são US$ 6,6 bilhões por dia. Ou US$ 275 milhões por hora. Ou mais de US$ 76 mil por segundo.
A cada piscar de olhos, enquanto o dinheiro irriga os cofres de quem lucra com tanques, mísseis e ogivas nucleares, o mundo segue sangrando em mais de 50 conflitos armados ativos. Da Ucrânia a Gaza, do Sudão ao Iêmen, os dados da ACLED e do Uppsala Conflict Data Program nos lembram que a paz é a exceção, não a regra.
Mas há uma outra guerra - silenciosa, invisível e muito mais universal - que raramente ocupa as manchetes dos jornais. É a guerra que se trava nos leitos de hospitais superlotados, nos consultórios médicos e nos laboratórios onde cientistas lutam contra a falta de recursos. É a guerra contra as doenças crônicas.
O diabetes, por exemplo, é uma pandemia silenciosa que devasta o século XXI. Segundo a International Diabetes Federation, 537 milhões de pessoas convivem com a doença no mundo. A cada ano, 6,7 milhões de mortes estão associadas a ela. É como se uma população equivalente à da Dinamarca desaparecesse anualmente sob o peso de uma doença para a qual a cura ainda não chegou.
O contraste entre o que se investe para destruir e o que se investe para salvar é mais do que absurdo. É uma ferida na alma da nossa civilização.
Pense comigo: um único caça F-35, uma das máquinas de guerra mais avançadas do planeta, custa entre US$ 80 milhões e US$ 100 milhões. Um submarino nuclear moderno ultrapassa US$ 7 bilhões.
Em outras palavras, o que se gasta em poucos minutos da economia militar global poderia financiar décadas de pesquisa científica em universidades e hospitais ao redor do mundo. Poderia significar a descoberta de uma nova droga, a erradicação de uma doença, a vida plena de uma criança que ainda nem nasceu.
A matemática da nossa civilização revela uma contradição profunda: mobilizamos recursos titânicos para aperfeiçoar a morte, mas tratamos a vida como um custo, nunca como um investimento.
Imagine, por um instante, um mundo diferente.
Se apenas 1% do orçamento militar global - apenas 1% - fosse redirecionado para a pesquisa médica, isso representaria cerca de US$ 24 bilhões por ano.
Seria dinheiro suficiente para financiar centenas de projetos científicos avançados.
A humanidade não sofre por falta de inteligência científica. Não nos falta capacidade técnica, nem genialidade. Falta-nos, isso sim, inteligência política. Falta-nos a coragem de reordenar prioridades. Falta-nos a humildade de reconhecer que normalizamos a insanidade.
Talvez a pergunta que define o nosso tempo seja simples, mas carregue o peso de todas as nossas escolhas: “Que tipo de civilização queremos ser?” Uma que mede sua força pelo poder de seus arsenais? Ou uma que mede sua grandeza pela capacidade de salvar vidas?
Jurandyr Bueno
É jornalista e especialista em Relações Governamentais e projetos para o Terceiro Setor