Quando o trabalho faz uma mulher duvidar de si mesma
Nenhuma mulher deveria precisar perder a própria voz para manter um emprego

O assédio moral nem sempre acontece aos gritos. Nem sempre vem em forma de ofensas ou humilhações em público. Na maioria das vezes, ele chega em silêncio, em pequenas atitudes, que juntas têm o poder de fazer uma mulher perder algo muito maior do que a vontade de trabalhar: faz ela perder a confiança em si mesma.
O assédio moral raramente acontece de uma vez. Ele se instala aos poucos. Primeiro, a mulher deixa de ser chamada para algumas reuniões. Depois, suas opiniões passam a ser ignoradas. As críticas aumentam, os acertos deixam de ser reconhecidos e ela começa a ser isolada. Quando percebe, já não ocupa os espaços que antes eram seus.
Muitas mulheres deixam de reconhecer a profissional que sempre foram. O assédio não tira apenas a tranquilidade. Muitas vezes, tira a identidade. Uma das consequências mais cruéis do assédio moral é fazer a mulher deixar de confiar em si mesma. Ela passa a se perguntar o que fez de errado. Revê cada palavra que disse, cada atitude que tomou e se pergunta se está exagerando, se entendeu errado ou se o problema é ela. Sem perceber, passa a duvidar até da própria sanidade.
Reconhecer esse processo nem sempre é fácil. Crescemos vendo diferentes formas de violência contra as mulheres serem normalizadas e fomos ensinadas a suportar, compreender e manter a paz, mesmo quando isso custa a nossa própria saúde física ou mental. Por isso muitas demoram a perceber que o que vivem não é apenas um ambiente de trabalho difícil. É violência.
Como se não bastasse toda a dor vivida, quando finalmente encontra coragem para falar, ela deixa de ser vista como vítima e passa a ser julgada. Dizem que está exagerando, que é emocional demais ou difícil de lidar. Perguntam por que demorou tanto para denunciar, como se o silêncio fosse uma escolha e não uma consequência do medo.
Em vez de questionarem quem praticou a violência, questionam quem teve coragem de denunciá-la. A culpa muda de endereço e, mais uma vez, recai sobre a mulher.
Falar sobre assédio moral no trabalho é dar nome a uma violência que ainda acontece em silêncio e que muitas vítimas nunca conseguiram colocar em palavras. É ajudar outras mulheres a perceberem que elas não estão exagerando, que não enlouqueceram e que aquilo que estão vivendo não deve ser normalizado.
Nenhuma mulher deveria precisar perder a própria voz para manter um emprego. Porque respeito não é um privilégio. É um direito.
Carolina Cavallari
Bancária e membra do coletivo Mulheres na Política