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ARTIGO

Quando o fim da relação não encerra a violência

Em inúmeros casos, é justamente após o término que a violência assume novas formas

por Lívia Maria de Carvalho
Publicado há 4 horasAtualizado há 4 horas
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Na véspera do Dia das Mães, é comum vermos homenagens emocionadas à figura materna. Mas existe uma realidade silenciosa que raramente aparece nos comerciais de televisão ou nas publicações de redes sociais: a de mulheres que continuam sofrendo violência mesmo após o fim do relacionamento.

Muitas mães acreditam que a separação representará o encerramento dos conflitos. No entanto, em inúmeros casos, é justamente após o término que a violência assume novas formas — mais sutis, porém igualmente devastadoras.

A violência deixa de ser apenas verbal ou física e passa a se manifestar por meio do controle emocional, da manipulação, do abandono financeiro, das ameaças veladas e, principalmente, da utilização dos filhos como instrumento de poder e punição.

Homens que dificultam acordos, atrasam propositalmente o pagamento da pensão alimentícia, criam conflitos constantes sobre visitas ou utilizam as crianças para atingir emocionalmente a mãe não estão apenas prolongando o fim de uma relação: estão perpetuando um ciclo de violência psicológica e familiar.

Infelizmente, a sociedade ainda romantiza a mulher que suporta tudo em silêncio. A mãe que “aguenta”, que “faz pelos filhos”, que carrega sozinha o peso emocional da família. Mas nenhuma mulher deveria precisar adoecer para provar amor pelos filhos.

É preciso compreender que o Direito de Família não se resume a disputas judiciais. Ele também envolve dignidade, proteção emocional e responsabilidade afetiva. Filhos não podem ser transformados em instrumentos de vingança entre adultos, porque os danos emocionais causados por relações familiares abusivas atravessam gerações.

Neste Dia das Mães, talvez a reflexão mais importante não seja apenas sobre homenagear mães, mas sobre como a sociedade pode protegê-las melhor. Principalmente aquelas que seguem lutando diariamente para garantir aos filhos uma infância saudável enquanto tentam sobreviver emocionalmente ao desgaste de relações marcadas pela violência e pelo desequilíbrio.

Porque o fim de um relacionamento deveria representar liberdade — nunca a continuidade do sofrimento.

Lívia Maria de Carvalho

Advogada. Membra do Coletivo Mulheres na Política. Secretária-Geral da Comissão Estadual de Igualdade Racial e Relatora do Comitê Especial sobre Julgamento com Perspectiva de Gênero da OAB/SP.