Quando o discurso quer voar mais longe que a pista
Afinal, Rio Preto tem estrutura para ser, de fato, um aeroporto internacional permanente?

A publicação do prefeito de São José do Rio Preto, Coronel Fábio Candido, sobre a manutenção da autorização para voos internacionais no Aeroporto Professor Eribelto Manoel Reino reacendeu um debate antigo na região: afinal, Rio Preto tem estrutura para ser, de fato, um aeroporto internacional permanente?
A resposta, quando analisada do ponto de vista técnico, é bem menos empolgante que o anúncio político. Isso porque a estrutura física do aeroporto de Rio Preto não acompanha o tamanho do discurso. Segundo dados técnicos oficiais, a pista do aeroporto de Rio Preto tem 1.640 metros de comprimento por 35 metros de largura. Além disso, a distância disponível para pouso é ainda menor: 1.565 metros. Para um aeroporto regional, a estrutura cumpre seu papel. Para vender a ideia de internacionalização permanente, porém, a conversa já começa a pedir licença à realidade.
Analisando os dados da AISWEB e fazendo um comparativo com aeroportos internacionais brasileiros de relevância regional, logística ou comercial, a diferença fica evidente. O Galeão, no Rio de Janeiro, opera com pistas de 4.000 metros por 45 metros e 3.180 metros por 47 metros. Guarulhos possui duas pistas: uma de 3.700 metros por 45 metros e outra de 3.000 metros por 45 metros. Viracopos, em Campinas, tem pista de 3.240 metros por 45 metros. Confins, em Minas Gerais, conta com pista de 3.600 metros por 45 metros. Brasília trabalha com duas pistas, uma de 3.300 metros por 45 metros e outra de 3.200 metros por 45 metros.
A comparação é objetiva: a pista do aeroporto de Rio Preto é menor e mais estreita do que as dos aeroportos internacionais utilizados como referência. Enquanto eles operam, em geral, com pistas acima de 2.000 metros e largura de 45 metros, Rio Preto dispõe de 1.640 metros por 35 metros. Não é preciosismo técnico. É aviação. E aviação não combina com improviso, empolgação eleitoral ou frase de efeito. Avião não decola no entusiasmo. Decola em pista.
Há ainda outro ponto que raramente aparece nos discursos: aeroporto não é apenas o asfalto onde a aeronave toca o solo. Existem exigências de áreas de segurança, faixas laterais, áreas de escape, distâncias declaradas, obstáculos, capacidade de pátio, terminal, equipamentos e serviços permanentes. Em determinados enquadramentos, a faixa de pista precisa respeitar larguras e recuos técnicos relevantes.
Portanto, não basta dizer “vamos internacionalizar”. É preciso responder: com qual pista? Com qual largura? Com qual área de escape? Com qual estrutura aduaneira permanente? Com qual terminal? Com qual pátio? Com qual capacidade operacional? Com qual aeronave? Com qual frequência? Com qual viabilidade? Sem essas respostas, a internacionalização vira mais um daqueles projetos que ficam lindos na aparência, crescem no discurso e encolhem diante da ficha técnica.
Isso não diminui a importância de Rio Preto. A cidade é polo regional, tem força econômica, relevância na saúde, no comércio, nos serviços e na logística do noroeste paulista. Mas, justamente por essa importância, o debate precisa ser sério. A região merece planejamento de verdade, não promessas populistas ou sonhos impossíveis.
Fernando Cunha
Ex-prefeito de Olímpia.