ARTIGO

Quando as mulheres chegam à mesa, o Brasil muda

O Summit Mulheres nas Profissões e a travessia entre trabalhar, pertencer e decidir

por Gislangi Martins Neto
Publicado em 18/08/2026 às 20:25Atualizado em 18/08/2026 às 20:30
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Toda sociedade revela aquilo em que acredita pela forma como distribui a palavra. Quem pode falar? Quem é escutado? Quem se senta à mesa antes que as decisões estejam tomadas? Durante séculos, as mulheres estiveram no centro da sustentação da vida e nas margens da autoridade. Trabalharam na terra, nas casas, nas fábricas, nos hospitais, nas escolas e nos pequenos negócios; cuidaram de crianças, idosos e comunidades inteiras. Ainda assim, o poder de nomear o mundo e decidir seus rumos permaneceu, quase sempre, em outras mãos.

Essa contradição atravessa a história brasileira. O direito de voto das mulheres só foi reconhecido em 1932. A Constituição de 1988 afirmou a igualdade entre homens e mulheres, mas a igualdade escrita não desmancha, por si só, hábitos, hierarquias e silêncios sedimentados por gerações. As leis abrem portas; a cultura determina quem se sente autorizado a atravessá-las. É justamente nesse espaço entre o direito formal e a vida concreta, que a sociedade civil se torna indispensável.

O trabalho nunca é apenas uma ocupação ou uma fonte de renda. Ele organiza identidades, distribui autonomia e define quem terá condições materiais para escolher o próprio caminho. Para uma mulher, autonomia econômica pode significar a possibilidade de sair de uma relação violenta, sustentar os filhos, estudar, empreender e participar da vida pública.

Por isso, o nosso trabalho não começou no Summit Mulheres nas Profissões e não terminou nele. O Grupo Mulheres do Brasil atua desde 2013 em causas que o país ainda não conseguiu resolver sozinho: enfrentamento à violência contra meninas e mulheres, igualdade racial, empreendedorismo, educação, saúde, inclusão, participação política e formulação de políticas públicas.

Foi essa história que chegou ao Expo Center Norte, nos dias 4 e 5 de agosto. O Summit foi grandioso não apenas por reunir mais de 20 mil pessoas, mais de 100 palestras e oito palcos simultâneos, mas por colocar em diálogo praticamente todos os segmentos e profissões. Estavam ali mulheres da indústria e do campo, do comércio e dos serviços, do Direito e da política, da tecnologia e da ciência, da saúde e da educação, da comunicação e das artes, do esporte, das carreiras militares, do empreendedorismo e do terceiro setor, pessoas renomadas no Brasil e fora do Brasil, discutindo sobre o futuro que desejamos.

Essa é a diferença entre um evento e um movimento. Um evento termina quando as luzes se apagam; um movimento começa quando cada pessoa retorna ao seu território com uma responsabilidade.

Quando uma mulher chega à mesa, ela traz consigo uma história que por muito tempo permaneceu fora da sala. Quando muitas chegam, a própria mesa precisa mudar. É esse o Brasil que queremos construir: um país em que mulheres não sejam exceções celebradas, mas presenças naturais; em que competência encontre oportunidade; e em que toda menina possa olhar para os espaços de poder sem perguntar se aquele lugar lhe pertence. O lugar pertence. O futuro também.

Gislangi Martins Neto

Advogada Trabalhista e empresarial, co-líder do Núcleo São José do Rio Preto do Grupo Mulheres do Brasil.