Promessa vã
A competição acabou desacreditada por ingerências de toda natureza, inclusive a política, que comprometeram a credibilidade do evento

Aprendi desde muito cedo com meus pais que não deveríamos fazer promessas às quais não pudéssemos cumprir. Não havia nesse ensinamento nada de caráter religioso.
Pelo contrário, referia-se à retidão, à lisura em nossa formação como pessoas.
Pois bem. Tinha me prometido não escrever mais nada sobre a Copa do Mundo, famoso torneio futebolístico mundial que, em tese, deveria unir os povos e transcorrer serenamente. Não foi o que presenciamos nesses trinta e nove dias de jogos. Infelizmente.
A competição acabou desacreditada por ingerências de toda natureza, inclusive a política, que comprometeram a credibilidade do evento, com a subserviência da Federação Internacional de Futebol e seu presidente aos Estados Unidos, ocasião em que Trump forçou a anulação do cartão vermelho dado ao jogador do seu país. Do mesmo modo, a arbitragem deixou a desejar em alguns confrontos, favorecendo algumas das seleções mais conhecidas. Foram inúmeras reclamações em alguns duelos, como o gol anulado do Egito contra a Argentina, já na fase eliminatória, identicamente na disputa entre Portugal e Croácia.
Assistindo a final, como descendente de espanhóis — meus avós cortaram o Mediterrâneo e o Atlântico, da Andaluzia até o Brasil —, Almeria falou mais alto e, evidentemente, nossa torcida era para a Espanha. Até aí nada de excepcional, mesmo porque poderia ser qualquer outro time que não o espanhol, pois para a Argentina não torceria em hipótese alguma. Racistas convictos que são, costumam chamar não só, mas também nossos atletas negros de macacos, atirando bananas no gramado para referendarem suas posturas nazistas e criminosas. Além disso, proclamam aos quatro ventos que Messi e Maradona são maiores que nosso rei Pelé, eleito o Atleta e o Jogador do Século pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela FIFA e já tinha sido condecorado como o atleta do século pelo periódico francês L’Equipe. Com Pelé, não precisamos da vergonhosa “mano de Dios”, branca, claro, para sermos campeões do mundo.
Entretanto, o motivo maior que me levou a faltar com a palavra dada, no caso específico, foi o desleal comportamento do time portenho, durante toda a disputa.
Faltas pesadas a todo momento em que os hispânicos estavam com a bola, muitas delas ignoradas pelo árbitro. Reclamavam toda vez que perdiam a colorida esfera que insistia o tempo todo a lhes escapar dos pés, procurando sempre o uniforme vermelho que foi competente o tempo todo no baile que deu nos pseudo-europeus.
Sem condição técnica e emocional de se organizarem como conjunto, mostraram sua grosseria ao mundo.
Não souberam perder. Viraram as costas aos espanhóis durante a celebração da conquista do título, com o “rei do gado” quebrando o tradicional protocolo de comemoração dos jogadores, não contente em ter recebido sonora vaia dos presentes ao estádio, para sair na foto, apesar de Infantino tê-lo puxado pelo braço tentando tirá-lo do local. Mais um episódio vexatório que o certame nos trouxe.
Para nossa alegria, o tango perdeu escandalosamente para as castanholas e o flamenco.
Y ¡Viva España!
MERLI DINIZ
Professora, advogada, poeta e cronista. Vice-coordenadora da Comissão de Direito e Literatura da 22ª Subseção da OAB Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.