Por quais mulheres negras estamos lutando?
A luta é para que todas possam experimentar o bem-estar, o bem viver, a reparação histórica

“A mulher negra movimenta toda a base da pirâmide social.” Seria apenas repetir a célebre frase de Angela Davis, que ecoa nos mais diversos espaços dos movimentos negros. Mas, afinal, quem são essas mulheres negras? São as de pele clara ou as de pele retinta? As de cabelos lisos ou crespos? As que professam a fé cristã ou as religiões de matriz africana? As mulheres negras de direita ou de esquerda? As mulheres cis, trans, lésbicas, bi, não binárias?
O Julho das Pretas chega, mais uma vez, rasgando o silêncio imposto por todo e qualquer sistema de opressão que se encontra na mesma encruzilhada, como propõe a intelectual Carla Akotirene ao discutir a interseccionalidade. E demonstra que essas mulheres disruptivas, essenciais para a construção da nossa história, mas tantas vezes invisibilizadas pelo protagonismo masculino, estão aqui para continuar movimentando a base da pirâmide social e para deixar o lugar de domesticação e subalternidade.
Ao contrário do que muitos imaginam, essas mulheres começam a se movimentar muito antes do dia 25 de julho, data em que celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e hoje recepcionada pelo calendário municipal por meio da Lei 14865/2025.
Um exemplo recente revela o tamanho dessa desigualdade. Durante a partida entre Brasil e Japão, na Copa do Mundo, realizada em pleno horário de expediente, a maioria das pessoas trabalhadoras foi dispensada antecipadamente para assistir ao jogo, excetuando-se aquelas que exercem atividades essenciais. Essa realidade, entretanto, não alcançou inúmeras mulheres negras que, naquele mesmo horário, saíam a pé dos condomínios onde trabalhavam, caminhavam até pontos de ônibus e enfrentavam trajetos superiores a cinquenta minutos para chegar ao próximo local de trabalho ou retornar às suas casas. Enquanto uns puderam exercer o direito ao lazer, outras permaneceram sustentando, silenciosamente, a rotina que mantém a sociedade funcionando, e sabemos que esse não foi um recorte só dos condomínios de luxo de Rio Preto, como os olhos marejados foram capazes de testemunhar, mas de toda União Federativa.
É por essas mulheres do amém ou do axé, de cabelos lisos ou crespos, de pele clara ou retinta, progressistas ou não, cis ou trans, que o Julho das Pretas trabalha incansavelmente. A luta é para que todas possam experimentar o bem-estar, o bem viver, a reparação histórica e a justiça racial, gozando plenamente dos direitos que sempre lhes pertenceram, mas historicamente ainda lhes são mitigados.
Claudionora Elis Tobias
Presidente do Conselho Municipal Afro – CMA, diretora Tesoureira da OAB e membra do Coletivo Mulheres da Política