Pior que tá não fica; vote..
Infelizmente, a ação política não indaga os verdadeiros problemas sociais (como faz o cientista), mas se mostra convicta de que basta a conquista do poder

Está aberta a porteira para a guerra eleitoral, ainda que, pela “Lei das Eleições”, a propaganda eleitoral somente seja permitida após o dia 15 de agosto. Ocorre que essa mesma lei estabelece que não configuram propaganda eleitoral antecipada “a menção à pretensa candidatura, a exaltação das qualidades pessoais dos pré-candidatos” e alguns atos pelos meios de comunicação social (inclusive via internet), dentre os quais, principalmente: a participação de pré-candidatos em entrevistas, programas, encontros ou debates no rádio, na televisão e na internet; a divulgação de atos de parlamentares e debates legislativos; e a divulgação de posicionamento pessoal sobre questões políticas; desde que não se peça explicitamente voto.
E aí está a máxima da hipocrisia legal, pois basta não dizer “vote em mim” ou “vote nele” e, mesmo se o fizerem explicitamente, a pena se resume a uma multa no valor de 5 a 25 mil reais ou ao equivalente ao custo da propaganda, se este for maior. Ora, compare-se o valor dessa multa com o que os mais de R$ 9 bilhões em despesas declaradas consolidadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Bem verdade que por detrás dessa hipocrisia está uma tentativa (hipócrita) de que ninguém queime a largada, ganhando vantagem em relação aos demais concorrentes, mas...
Pior que isso é ver que, para 2026, foram destinados R$ 6,39 bilhões aos partidos políticos, sendo R$ 1,43 bilhão para sua manutenção (Fundo Partidário) e os outros R$ 4,96 bilhões para o financiamento das campanhas eleitorais (Fundo Eleitoral).
Porém, quando disse “pior que isso”, eu não quis me esquecer da máxima “nada é tão ruim que não possa ser piorado”, afinal, será na arena pública, real e especialmente na virtual, que muitos dos peões do sistema (eleitores) se digladiarão cumprindo a profecia: “O irmão trairá seu irmão e o entregará à morte, e assim também o pai a seu próprio filho. Os filhos se rebelarão contra os pais e os matarão” (Mateus, 10:21).
Gosto muito de um texto publicado em 2010 pela professora do Departamento de Educação da PUC-RJ, Zaia Brandão, em que ela afirma que “Ciência e ideologia situam-se em dois domínios diferentes – o da indagação e o da convicção – com desdobramentos igualmente distintos no plano social: o da produção do conhecimento e o da ação política”; de suas palavras extraio que, infelizmente, a ação política não indaga os verdadeiros problemas sociais (como o faz o cientista), mas se mostra convicta que basta a conquista do poder (uma ambição natural humana) e, portanto, pouco produz de positivo, se comparado com o ambiente de intolerância que gera para lhe nutrir.
Jamais esqueço a fala de Umberto Eco dada a jornalistas, logo após a cerimônia na Universidade de Turim, onde recebera o título de Doutor Honoris Causa em "Comunicazione e Culture dei Media": “I social media danno diritto di parola a legioni di imbecilli”; pior ainda foi sua explicação: “Prima parlavano solo al bar dopo un bicchiere di vino, senza danneggiare la collettività. Venivano subito messi a tacere, mentre ora hanno lo stesso diritto di parola di un Premio Nobel”.
Sim, àqueles que sonhavam – como eu – que a intolerância política se arrefeceria ao final das eleições de 2022, com posse dos seus eleitos e superada a ressaca, ficou mais claro aos políticos que o Brasil já não é mais o “país do futebol”, mas se transformou num campo de batalha entre estúpidos, que se arvoram em bravatas inconsistentes e embrulhadas num falso manto de aparente ideologia, grunhindo no espaço ensurdecedor das redes sociais.
Como dizia John Kramer, no filme Jogos Mortais: “Let the game begin”; alguns sobreviverão.
Azor Lopes da Silva Júnior
Advogado, professor de direito e coronel da Polícia Militar