Diário da Região
PERSONAGENS DA NOSSA HISTÓRIA

VIDA MISSIONÁRIA

Fátima Aparecida Silva, a Fatinha, participou de missões no Brasil e Peru como enviada da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Rio Preto

por Raul Marques
Publicado há 4 horas
Fátima Aparecida Silva, a Fatinha (Lézio Jr.)
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Fátima Aparecida Silva, a Fatinha (Lézio Jr.)
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Fátima Aparecida Silva, a Fatinha, viveu de forma intensa a infância no Higienópolis e nos bairros do entorno, na década de 1960, em Rio Preto. Ela nadava no córrego Aterradinho, comia frutas diretamente no pé, passeava pelas antigas fazendas e viveu aventuras com os amigos.

Sem aparelho de TV na sala, Fatinha brincava na rua até altas horas da noite - muitas vezes, com algum dos cinco irmãos. Desde cedo, sonhava em ser atriz, tanto que, aos 17 anos, ingressou no teatro amador, na Casa de Cultura.

No Grupo Raça, encenou duas peças, como “Um rubi no umbigo”, do poeta Ferreira Gullar, e colaborou na área de figurino, por gostar de costurar. Entre paradas e retornos, dedicou dez anos a essa arte. De repente, Fatinha expandiu os interesses.

Em 1987, começou a frequentar a 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Rio Preto, com vizinhos do Higienópolis. Com celeridade, percebeu que sua vida mudou e encontrou um lugar no mundo. Fatinha acredita que recebeu um chamado divino para se dedicar a cuidar e ajudar o outro.

A oportunidade tocou seu coração de maneira tão profunda que fez emergir a vontade de trabalhar com crianças. Dois anos depois, colaborou com projetos da Presbiteriana no Eldorado e na extinta favela da Vila União. Fora a evangelização, participava de ações sociais, lúdicas e culturais. Nesse ambiente positivo, Fatinha sentiu que precisava ir além e buscou informação.

No início da década de 1990, morou em Petrópolis (RJ) para participar do Curso de Missões, na Operação Mobilização Brasil (OM). Ao terminar a formação em 1991, Fatinha foi enviada a uma favela de Lima, no Peru. Na época, ocorria um conflito armado provocado pelo Sendero Luminoso, classificado pelo governo local como grupo terrorista.

Juntamente com a questão espiritual, Fatinha apoiava, cuidava, amparava e orientava moradores, sempre com olhar estendido às crianças e aos jovens. Participou da distribuição de muita água e comida, em razão da insegurança alimentar da população. Convivia com a pobreza e o medo o tempo inteiro.

Morando na favela, Fatinha colocou em prática, ao lado de outros missionários, uma missão completa, com atenção ao espírito e ao corpo. De um jeito prático, simples e direto, cultivou esperança em terrenos áridos!

Com ataques e explosões frequentes, o Sendero Luminoso não simpatizava com religiosos. Nos dois anos em que Fatinha permaneceu no Peru, cerca de cem pessoas ligadas a igrejas diversas foram mortas – o conflito deixou 70 mil mortos e desaparecidos. Ela não sofreu violência física, mas psicológica.

Focada na missão, não pensou em desistir por conta dos crimes. Também sofreu com os terremotos, entre os quais um importante, com magnitude de 6,4 na escala Richter. A terra tremia praticamente todos os dias, com variadas intensidades.

No retorno a São Paulo, Fatinha se matriculou no curso de auxiliar de enfermagem da Cruz Vermelha e aprendeu sobre saúde. Trabalhou seis meses em um hospital para obter experiência profissional que, mais tarde, reverteu a quem precisa.

Perfil

Fátima Aparecida Silva

Como é conhecida: Fatinha

Atuação: Missionária

Nascimento: Rio Preto

Data: 11/02/1960

Pais: João Batista Silva e Maria Eduarda Ferreira Silva

Irmãos: Laura, Maria Helena, João Roberto, Milton e Mário

Filhos: Jonathan Willian

Silva, 27 anos, e Júlio Mateus Silva, 25 anos

Neta: Rebeca, 8 anos

Formação: Curso de Missões (1990 a 1991)

Instituição: Operação Mobilização Brasil (OM)

Formação: Auxiliar de Enfermagem (1994)

Instituição: Cruz Vermelha

Formação: Curso de Missionário (2000 a 2003)

Instituição: Seminário Missiológico

Trajetória: Faz parte da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Rio Preto desde 1987. A partir da década de 1990, foi enviada pela Igreja para missões

Onde atuou: Rio Preto (SP), Florianópolis (SC), São José dos Campos (SP), Palestina (SP), Caarapó (MS), além de Lima, no Peru

Projeto atual: Desde 2000, participa da Rede Refúgio Rio Preto, um projeto desenvolvido pela 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Rio Preto

Aldeia, adoção e refugiados

Fátima Aparecida Silva, a Fatinha (Lézio Jr.)
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Fátima Aparecida Silva, a Fatinha (Lézio Jr.)

A próxima missão de Fatinha, em 1997, foi em Caarapó (MS), na reserva Guarani-Kaiowá. Não havia violência como no Peru, mas existiam os desafios naturais de morar na floresta e as dificuldades causadas pela fome, pobreza e falta de estrutura.

Morando perto da aldeia, Fatinha se dedicou à comunidade, especialmente na área de saúde. Oferecia remédios, informação e atenção aos moradores e estabeleceu um forte vínculo com crianças e jovens, que frequentavam sua casa, à noite, para assistir filmes e comer pipoca. Trabalhou no município por dois anos.

Na sequência, Fatinha seguiu para uma temporada de sete anos em Florianópolis, que incluiu um curso no Seminário Missiológico. Na capital de Santa Catarina, decidiu adotar uma menina, um sonho desde a infância. Planejou, fez os trâmites legais, esperou e não conseguiu. Mudou o cadastro e recebeu uma ligação na mesma semana.

Adotou Júlio, então com 6 anos, de Indaial. Em poucos dias, passaram a viver embaixo do mesmo teto. Nas primeiras semanas, Júlio se sentia mal, tinha febre e adoeceu devido à separação do irmão, Jonathan, 8 anos, que acabou encaminhado a outra família.

Em seis meses, Fatinha conquistou a guarda dos dois irmãos, que nunca mais se separaram. Os meninos sempre acompanharam a mãe nas missões, que depois do Sul ocorreram no Estado de São Paulo, em Palestina e São José dos Campos.

Na pandemia, Fatinha passou a atuar na Rede Refúgio Rio Preto, um projeto desenvolvido pela 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Rio Preto. Estrangeiros e imigrantes são auxiliados com roupas, comida, medicação, móveis e orientação sobre como regularizar a documentação, conseguir atendimentos médicos e matricular os filhos na escola.

Fatinha se sente realizada ao dedicar seu tempo ao outro.