UM GRANDE CORAÇÃO
Domingas Ricci do Amaral é referência na comunidade espírita e idealizadora do Hospital Bezerra de Menezes, do Albergue Noturno e da Escola Irmã Estelita

Nascida em Descalvado (SP), Domingas Ricci do Amaral transformou a realidade de Rio Preto, a partir da década de 1930, ao estender as mãos, trabalhar pela assistência social e auxiliar pessoas que necessitavam de ajuda. É pioneira na seara mediúnica.
Vinda de família católica, Domingas se casou em 1922 com João Maurício do Amaral, o Zico, que trabalhava como alfaiate e pertencia a uma família espírita. Ela sempre respeitou e conviveu com as duas religiões.
Na pequena Rio Preto do começo do século 20, suas ações caridosas melhoraram a vida da comunidade e, rapidamente, a tornaram conhecida e respeitada como mulher forte, firme em seus propósitos e que lutava pelo que acreditava.
Agia mais do que falava.
Em 5 de fevereiro de 1933, Domingas participou da fundação da Associação Beneficente Espírito Consolador, na Independência, onde morava. Tornou-se referência em espiritismo e no atendimento a pessoas vulneráveis.
Na época, não existia entendimento suficiente da saúde mental, sobretudo dos órgãos públicos, e Rio Preto, por consequência, não contava com uma instituição especializada em acolher o cidadão que sofria de algum transtorno.
Quem precisava de tratamento era “deixado” na calçada em frente à casa de Domingas, à própria sorte. Casos graves de doenças mentais, que provavelmente demandariam internação, terminavam da pior forma. Pacientes eram presos na antiga cadeia da cidade e dividiam espaço com criminosos de diversos níveis.
Apesar de tentar ajudar, Domingas entendeu que nem tudo estava relacionado a questão espírita, mas, na maioria dos casos, de saúde pública.
Dessa forma, engajou-se na campanha para fundar um hospital, ao lado de outras lideranças igualmente importantes, para que pudesse tratar portadores de doenças mentais com dignidade e ferramentas adequadas.
No dia 22 de dezembro de 1946, ocorreu o lançamento da pedra fundamental do Hospital Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, que acabou inaugurado em 16 de novembro de 1953, após muito trabalho, busca de doações e eventos sociais.
Na porta de entrada, instalaram uma placa de agradecimento aos principais auxiliadores do projeto. Apenas uma mulher consta na lista. Domingas! O Bezerra de Menezes ainda hoje é essencial em Rio Preto e em 30 municípios da região em saúde mental, atende principalmente pelo SUS e tem mais de 200 leitos.
Domingas teve papel relevante na criação do Albergue Noturno Protetor dos Pobres, em 10 de março de 1946, que segue em funcionamento e desenvolve trabalho filantrópico com o migrante, o munícipe, pessoas em situação de rua ou que procuram por amparo, além de alguns estrangeiros.
Ela residia em uma casa simples nos fundos do Albergue. Cozinhava a sopa servida nas refeições, lavava e conseguia roupas, pedia donativos e atuava no que fosse necessário. Sua vida foi dedicada ao outro.
Perfil
Domingas Ricci do Amaral
Como era conhecida: Dona Domingas
Atuação: Filantropa e líder espiritual
Nascimento: Descalvado (SP)
Data: 10/07/1907
Passagem: Rio Preto
Data: 25/04/2007
Pais: Pedro Ricci (calabrês) e Florisbela (indígena)
Irmãos: Etelvina, Sebastiana, Donato e Ângelo
Marido: João Maurício do Amaral, o Zico (alfaiate)
Filhas: Maria Helena, Jandira, Maria e Odete
Associação: É uma das fundadoras da Associação Beneficente Espírito Consolador, no dia 5 de fevereiro de 1933. Foi primeira diretora (1934), primeira-secretária (1942), conselheira fiscal (1945/1961 a 1964/1991 a 1998), vice-presidente (1965 a 1968/1977 a 1978/1983 a 1987), diretora de doutrina (1969 a 1976), segunda-tesoureira (1979 a 1980) e diretora de sindicância (1989 a 1991)
Projetos: Idealizadora e fundadora do Hospital Dr. Adolfo Bezerra de Menezes (15 de junho de 1946), onde integrou o conselho administrativo (1971 a 1973); do Albergue Noturno Protetor dos Pobres (10 de março de 1946), o qual foi diretora administrativa (1981 a 1982); e Creche Irmã Estelita (1954), atual Escola de Educação Infantil Irmã Estelita. Na instituição desempenhou a função de segunda-secretária (1956 a 1960)
Homenagem: Sua história foi contada no livro “A condutora de sonhos”
Adoções e creche

Em seu grande coração, Domingas abriu espaço para realizar o sonho de ser mãe e adotou quatro filhas com Zico. Depois de deixar a residência na Independência, a família se instalou em uma edícula na Imperial.
A preocupação de Domingas com o bem-estar coletivo foi reconhecida, o que ajudou em suas empreitadas. Na década de 1940, aconteceu um fato importante.
Antônio Menezes, morador do Rio de Janeiro, comprou um terreno de 1.280 metros quadrados na Rua Antônio de Godoy. Pretendia morar no local.
Por algum motivo, no entanto, desistiu da mudança. Assim, pediu para a irmã, Maria Aparecida Menezes, doar o lote a uma instituição de caridade.
A área acabou repassada para a Associação Beneficente Espírito Consolador e motivou Domingas a desenvolver mais um projeto.
O terreno terminou utilizado para sediar a Creche Irmã Estelita (1954), atual Escola de Educação Infantil Irmã Estelita.
Nos espaços criados por Domingas, pessoas de menor posse encontraram abrigo, atenção e palavras de incentivo.
Ainda lúcida, Domingas fez sua passagem aos 99 anos, em 25 de abril de 2007 - três meses antes de completar o centenário. Foi sepultada no Cemitério da Ressurreição.
Em uma de suas últimas falas públicas, externou a vontade de criar uma casa para abrigar mães solteiras. Não houve tempo de colocar em prática.
Mas seus exemplos, o amor pelo semelhante e a necessidade de colaborar seguem inspirando.