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Personagens da nossa história

Um farol nas artes

Professor, escritor, jornalista, diretor teatral, roteirista, crítico de arte e diretor cinematográfico, Romildo Sant’Anna é referência cultural

por Raul Marques
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Romildo Sant’Anna (Lézio Jr.)
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Romildo Sant’Anna (Lézio Jr.)
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Em uma casa humilde da rua Independência, Romildo Sant’Anna nasceu e cresceu ao lado das quatro irmãs. Primogênito do casal Benedicto (pedreiro) e Ayde (do lar), teve uma infância difícil, em razão da dificuldade financeira, da falta de estrutura básica, dos conflitos com o pai que bebia excessivamente e da comida medida na mesa.

Antes de completar dez anos, iniciou a lida diária como office-boy de escritório contábil. Também vendia flores nos cemitérios e ajudava nas despesas domésticas.

Depois, virou balconista da Livraria Martins. Alfabetizado pela mãe aos cinco anos, Romildo não sabia, nem poderia, mas essa experiência profissional mudou sua vida para sempre. Nesse ambiente de conhecimento e encontro, aproximou-se dos livros, descobriu o prazer da leitura e se apaixonou pelas literaturas brasileira, latino-americana e europeia.

Na adolescência, empregou-se na área contábil em um curtume, o que motivou um passo importante. Ao conquistar uma bolsa, ingressou no curso técnico de Contabilidade da Faculdade Dom Pedro II. Agarrou a única opção viável.

Romildo, no entanto, é ligado às artes desde cedo, tanto que cantava no coral da Igreja da Redentora e fazia teatro amador – aos 14 anos, escreveu a primeira peça e atuava. Percebeu que somente a educação poderia proporcionar uma mudança significativa na própria história. Assim, inaugurou uma rotina de estudos com um amigo a fim de se preparar para o vestibular.

A aprovação em 10º lugar no curso de Letras da Unesp em 1969 trouxe alegria e dúvidas. Não teria como assistir às aulas matutinas. Conversou, então, com o dono da empresa e conseguiu liberação nas manhãs, em troca de fazer as obrigações à tarde e à noite. Uma ampla janela se abriu.

Nessa altura, Romildo cuidava da família, já que a mãe, com grave problema cardíaco, ficou três anos se tratando em São Paulo, com a companhia do marido, e voltou após transplante de coração.

No segundo ano da graduação, recebeu proposta para lecionar em um cursinho e, sem planejar, tornou-se professor. Comunicou a oportunidade ao empregador, que entendeu a situação, facilitou a saída e perdoou uma dívida enorme do jovem funcionário, equivalente a dois anos de salários, contraída com adiantamentos usados no tratamento da mãe.

Na Unesp Rio Preto, Romildo se encontrou, deparou-se com novos mundos, sentiu a sensação de pertencimento, potencializou as aptidões e construiu uma respeitada carreira universitária. Atuou em diferentes campos do saber e se tornou um respeitado intelectual no Brasil e no exterior, com décadas de pesquisas, publicações, estudos e leituras.

Ao escolher a cultura popular como objeto basilar de trabalho, Romildo jogou luz, a partir de critérios acadêmicos, na beleza, na importância e na riqueza nem sempre compreendida do universo caipira. É o mais profundo estudioso da obra do pintor José Antônio da Silva.

Perfil

Romildo Sant’Anna

Atuações: Professor, escritor, jornalista, diretor teatral, roteirista, crítico de arte e diretor cinematográfico

Nascimento: São José do Rio Preto

Data: 28/10/1948

Pais: Benedicto Ricci Sant’Anna e Ayde Lima Sant’Anna

Irmãos: Etelvina, Sueli, Katie e Jacira

Filhos: Luísa, Marília e Pedro

Graduação: Letras (1972)

Instituição: Fafi/hoje Unesp Rio Preto

Especialização: História da Arte Universal, Linguística no Brasil, Arte e Cultura Hispânica (1979)

Instituição: Instituto Iberoamericano de Cooperación, em Madrid

Mestrado: Literatura

Comparada (1976)

Instituição: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Doutorado: Literatura Comparada (1986)

Instituição: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Livre docência: Poética da Oralidade (1996)

Instituição: Unesp Rio Preto

Unesp Rio Preto: Por 27 anos, foi professor e orientador da pós-graduação em História da Arte, Literaturas Hispano-americanas, Poética da Oralidade, Literatura, Cultura Popular e O Discurso Ideológico da Arte. Orientou 19 programas de mestrado, três de doutorado e dezenas de trabalhos de iniciação científica. Coordenou o programa de pós-graduação

Cultura: Professor e Diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal de Goiás; presidente do Conselho Municipal de Cultura; membro-fundador do Comdephact; diretor do Teatro Municipal; diretor-fundador do Museu de Arte Primitivista José Antônio da Silva, de Rio Preto (1980-1985/2000-2003/2012-2019); membro da União Brasileira de Escritores; ocupa a cadeira número 1 da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura

Comissões: Integrou o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária, a Comissão Central de Pós-graduação e Pesquisa, o Conselho Curador da Fundunesp e a Comissão Permanente de Regime de Trabalho da Unesp (Reitoria, São Paulo). Subsecretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, assessor científico Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e consultor científico da CAPES e CNPq/Ministério da Educação. Participou de curadorias de certames artísticos como a Bienal Naïfs do Brasil (Sesc-Piracicaba) e Salão Paulista de Arte Naïf (Museu de Arte Sacra)

Escrita: É autor dos livros “Poesia e música” (1985, coautoria), “Silva: Quadros e livros - Um artista caipira” (1992), “Silva-selva, cuadros y libros – um artista Guajiro” (Havana, 1990), “Liberdade é azul - Crônicas da vida, da arte e da morte” (2003), “Artistas da mídia na mídia” (2007), “Marcos e marcas: Brasil” (coautor: Antônio Manoel dos Santos Silva, 2008) “É tudo verdade” (2008) e “A moda é viola - Ensaio do cantar caipira” (2000). É abonador do Aurélio – Dicionário da Língua Portuguesa - Século 21 (2000). Publicou dezenas de trabalhos científicos em revistas no Brasil e no exterior

Imprensa: Colunista da Folha de S. Paulo, Dia e Noite, Folha de Rio Preto, Revista Globo Rural, Revista Domínios, rede de jornais Bom Dia, TV Progresso e Rede Vida de Televisão. Editorialista e comentarista dos telejornais da TV Tem (2004 a 2012)

Cinema: Roteirista, apresentador e produtor associado do filme de longa-metragem “A moda é viola” (2015), dirigido por Reinaldo Volpato

Prêmios: Como ensaísta, crítico de arte e artista multimídia, entre mais de 40 prêmios nacionais e estrangeiros, recebeu o Prêmio Governador do Estado de São Paulo e o Premio Casa de las Américas, em Havana, pelo livro “Silva, quadros e livros - Um artista caipira”, como melhor ensaio sobre arte e cultura da América Latina

Três prisões, uma missão de vida

Romildo Sant’Anna é autor de oito livros e de dezenas de trabalhos científicos (Arquivo Pessoal)
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Romildo Sant’Anna é autor de oito livros e de dezenas de trabalhos científicos (Arquivo Pessoal)

Como integrante do Diretório Acadêmico do curso de Letras, Romildo sofreu a primeira de suas três prisões. Com o Brasil imerso na Ditadura Militar, o então estudante recebeu a missão de encontrar um advogado na Capital para ajudar um colega preso em congresso da UNE.

Assim que chegou ao local combinado, acabou surpreendido por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e passou a noite aprisionado. A curta experiência, no entanto, trouxe desdobramentos futuros.

Após se formar, foi aprovado no concurso da Universidade Federal de Goiás, mas quase não assumiu o posto de professor por conta da passagem na polícia. Só foi aceito porque o prefeito de Rio Preto à época, Wilson Romano Calil, interveio em Brasília. Mesmo aprovado legalmente, sofreu patrulha nos três anos em que morou em Goiânia.

Como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da universidade, Romildo promoveu sessões de “O Delator”, de John Ford, na mostra de grandes diretores. Preso sob acusação de apresentar um filme sobre técnicas de guerrilha, o que não é verdade. No interrogatório depois de outra noite detido, foi “orientado” a pedir exoneração e ir embora, o que aceitou.

De volta à região, Romildo lecionou na Faculdade de Filosofia de Votuporanga. Em 1975, tornou-se professor da Fafi/hoje Unesp Rio Preto, onde trabalhou por 27 anos.

Em 1986, foi levado pela Polícia Federal após exibir para os alunos o filme “Eu vos saúdo, Maria”, de Jean-Luc Godard, que havia sido censurado no Brasil. Mais uma noite encarcerado. Dessa vez, recebeu um tratamento melhor e jantou pizza.

Combativo, Romildo usou a energia, o tempo e a disposição para dar voz a artistas populares, culturas diversificadas e um Brasil que fica à margem.