Incentivadora da leitura
Lucila Teresa Papacosta Conte é professora, mediadora e coordenadora da Casa das Flores

Na infância vivida na bucólica Tanabi da década de 1950, Lucila Teresa Papacosta Conte se dividiu entre dois mundos especiais, mágicos e repletos de significados. Filha dos professores Venizelos e Leonilda, Lucila contou com farta oferta de livros, histórias e literatura. Em uma papelaria da cidade, tinha autorização para comprar obras literárias.
Nos horários livres, Lucila viajava nos enredos e encontrava nos autores grandes parceiros. À época, não contava com crianças por perto para brincar. Só ganhou um irmão, Venizelos Filho, aos sete anos. Não sabia, nem poderia, mas ali, no incentivo à leitura que recebia dos pais, começou a se construir como leitora.
Na casa da avó Laureta, do outro lado da rua, Lucila se encantava, colocava a mão na massa e fazia descobertas. Ela se aconchegava no colo, comia pão de queijo e biscoito de polvilho assados em fogão a lenha e ampliava seus horizontes no quintal.
Laureta não foi alfabetizada, mas proporcionava experiências práticas que Lucila nunca esqueceu, como cultivar a terra, respeitar o tempo certo de plantar e colher, cuidar dos animais, apreciar as flores, comer fruta no pé.
Do padrinho João de Melo Macedo, poeta, farmacêutico e jornalista, Lucila ganhava poemas e versos. Com afetos variados, cresceu curiosa, apaixonada por conhecimento e instigada para estudar com afinco.
De forma natural, na adolescência, Lucila escolheu o Direito, pela oportunidade de ampliar o entendimento sobre as leis e o rico universo que lida com direitos básicos do cidadão, como liberdade e justiça.
Aos 18 anos, hospedou-se no pensionato das Irmãs Andrelinas na Capital e entrou em um cursinho preparatório para vestibular. Um período produtivo, apesar das limitações impostas pela Ditadura Militar. Nas aulas de Filosofia, um guarda vigiava o conteúdo apresentado aos estudantes.
Após refletir sobre seus planos, Lucila redefiniu a rota, mudou-se para Rio Preto e acabou aprovada na Fadir/atual Unirp. Na sua turma de Direito, conheceu o empresário Claudenir Sebastião Conte.
Com afinidade, eles se gostaram e começaram a namorar. Permaneceram juntos durante toda a graduação. Conquistaram o diploma e se viram prontos para efetuar um passo importante no relacionamento. Casaram-se em 5 de julho de 1973.
Sem exercer a advocacia, Lucila também ingressou no curso de Letras da Fafi/ Unesp, em uma área com a qual também dialogava. Estudou três anos na instituição, parou por um momento e terminou na Farfi.
Nessa época, focou a atenção na família e teve os primeiros filhos. Depois iniciou a carreira de professora, tanto de português quanto de francês, em instituições como Colégio Santo André, Cardeal Leme e Oscar Salgado Bueno.
Foram mais de duas décadas dedicadas à sala de aula, com muito trabalho e passagens incríveis. Alguns alunos se tornaram amigos.
Aos 54 anos, aposentou-se da escola, viveu uma temporada de transformações e inaugurou uma nova e desafiadora jornada, a partir de algo que sempre fez bem.
Perfil
Lucila Teresa Papacosta Conte
Atuação: Professora, mediadora de leitura e coordenadora da Casa das Flores
Nascimento: Tanabi
Data: 7/1/1949
Pais: Venizelos Papacosta e Leonilda Costa Papacosta
Irmão: Venizelos Papacosta Filho
Marido: Claudenir Sebastião Conte
Filhos: Ana Carolina, Vicente, Maria Fernanda e Antônio Augusto
Netos: Sophia, Maria Eduarda, Maria Victória, Alice, Vicente, Antônia, Antônio, Francisco, José Carlos, Isabela e Nicolas
Graduação: Direito (1972)
Instituição: Fadir
Graduação: Letras (1975)
Instituições: Fafi e Farfi
Educação: Trabalhou durante 22 anos como professora de português e francês nos ensinos fundamental e médio, além de supletivo, no Colégio Santo André, Cardeal Leme, Miziara (também foi coordenadora) e Oscar Salgado Bueno. Também lecionou em Bálsamo por três anos
Mediação: Criou em 2003 um projeto de leitura coletiva que cresceu, chamou a atenção e se transformou na Casa das Flores
Imprensa: Escreveu 185 colunas “Cartas de Anthonia” para o Diário da Região. Também publicou resenhas literárias na Revista Bem-Estar e assinou a coluna “Conversando com Anthonia” na Gazeta de Rio Preto
Casa das Flores

Ao deixar a rotina escolar, Lucila pensou em ocupar o tempo com atividades que dialogassem com suas preferências. Assim, envolveu a leitura.
Mesmo sem ter um norte definido, alugou uma sala em 2003, comprou uma ampla mesa e 12 cadeiras e chamou algumas pessoas com objetivo de ler.
Mulheres, principalmente, se encontravam para conversar e discutir o conteúdo de determinados livros, contribuindo com um valor simbólico. Lucila preparava uma garrafa de café e servia biscoitos. Deu muito certo.
Aumentaram os pedidos de interessados em integrar a iniciativa e houve a necessidade de criar turmas. Com maior público, os encontros foram transferidos para um imóvel na Rua Raul Silva, Redentora, onde Lucila morou e teve seus quatro filhos.
A Casa das Flores, como foi batizada, tornou-se um espaço importante de Rio Preto para a leitura, troca, reflexão e eventos culturais, pois já abrigou cursos, ações formativas, lançamentos e exposições.
Tem mais de 60 participantes ativos nos grupos, a maioria mulher, focados em clássicos, literatura brasileira e produções de Rio Preto. Lucila coordena cinco turmas, enquanto Yolanda Lemos uma. Teresa Matera também foi mediadora.
Foram trabalhados títulos como “A divina comédia” (Dante Alighieri), “Metamorfoses” (Ovídio), “Mulheres que correm com os lobos” (Clarissa Pinkola Estés), “Esaú e Jacó” (Machado de Assis), “Lavoura arcaica” (Raduan Nassar), “7 Bosh em Mim” (Lazslo Ávila), entre muitos outros.
Que Lucila adora ler acompanhada, todo mundo sabe. Mas ela também se sente realizada ao exercer sua religiosidade, cozinhar para o outro, receber os amigos com mesa posta, compartilhar a vida com a família e aprender.