Pequenas histórias de um ex-ferroviário – 3ª parte
A revitalização resgatava a real dimensão do desenvolvimento de Rio Preto

No episódio anterior, deixei uma pergunta no ar: o que estaria por trás dos tapumes que bloqueavam uma sala misteriosa na Estação de Rio Preto? O espaço estava lacrado do chão ao teto, despertando nossa curiosidade: por que isolar aquele local de forma tão drástica?
A retirada cautelosa dos obstáculos revelou uma verdadeira "caça ao tesouro". O que vimos foi um grande acervo rigorosamente empilhado: cadeiras, armários e escrivaninhas com placas de patrimônio da FEPASA. À medida que avançávamos, o tesouro se tornava mais valioso. Surgiram relíquias da antiga EFA (Estrada de Ferro Araraquara): pratos, xícaras, açucareiros e talheres, todos exibindo orgulhosamente a logo e as cores da companhia.
Tudo estava "cuidadosamente" guardado em um ambiente inóspito, mas protegido. Para nossa surpresa, o local estava imune a pragas; encontramos roupas da EFA e FEPASA, cardápios do carro-restaurante, panelas e marmitas de alumínio com a logo da EFA gravada na tampa. Havia até itens curiosos, como saquinhos de pipoca doce intactos e garrafas de vinho Liebfraumilch.
A descoberta incluía desde máquinas de escrever até calculadoras contemporâneas. Sob a liderança de uma museóloga, iniciamos o inventário desse patrimônio. Ficou claro que aquele acervo foi fruto de uma ação silenciosa de ex-ferroviários que, prevendo os riscos da extinção da FEPASA e a chegada das novas concessionárias, decidiram proteger a história para que ela não se perdesse no tempo.
Com o patrimônio catalogado, iniciamos a missão de preservar o "tesouro" e preparar a Estação para a retomada das viagens do Trem Caipira. Esse esforço culminaria na criação do Museu Ferroviário de São José do Rio Preto.
A revitalização daquele imponente complexo de 1941 era o ponto de partida para resgatar a real dimensão do desenvolvimento de Rio Preto, que nasceu e cresceu sobre esses trilhos. Estávamos diante de provas concretas de uma história extraordinária que se recusava a ser esquecida.
No 4º episódio, contarei a vivência de colocar o Trem Caipira, enfim, de volta aos trilhos!
Arlindo Lima
Turismólogo e ex-coordenador do Projeto Turístico Cultural Trem Caipira.