PCC, CV, EUA, blogueiros e bilhões
Ao mesmo tempo em que aproximam pessoas e democratizam a comunicação, as redes sociais também podem ser utilizadas para conferir aparência de normalidade a atividades criminosas

A segurança pública continua sendo uma das maiores preocupações dos brasileiros. Trata-se de um problema que atravessa governos, partidos e gerações. Apesar de avanços pontuais, a sensação da população é de que o crime organizado continua crescendo, ampliando sua influência e se tornando cada vez mais poderoso.
O problema é que já não estamos falando apenas de traficantes ou assaltantes. Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho transformaram-se em organizações extremamente sofisticadas, com atuação nacional e internacional, movimentando bilhões de reais e expandindo seus tentáculos para setores cada vez mais diversos da economia.
Nos últimos anos, investigações policiais revelaram a presença dessas organizações em atividades que vão muito além do tráfico de drogas. Lavagem de dinheiro por meio de imóveis, postos de combustíveis, empresas de transporte, investimentos financeiros e outros negócios passaram a integrar a estratégia dessas facções, que compreenderam que o poder econômico é tão importante quanto as armas.
Mas talvez um dos aspectos mais preocupantes seja a crescente aproximação entre o crime organizado e o universo digital. Não são poucos os casos recentes envolvendo influenciadores, blogueiros e produtores de conteúdo investigados por suposta ligação com organizações criminosas ou por atuarem como instrumentos de divulgação, promoção ou ocultação de atividades ilícitas.
As redes sociais transformaram-se em uma poderosa ferramenta de influência. Ao mesmo tempo em que aproximam pessoas e democratizam a comunicação, também podem ser utilizadas para construir narrativas, ampliar alcance e conferir aparência de normalidade a atividades criminosas. O crime organizado compreendeu rapidamente o potencial desse ambiente e passou a utilizá-lo de maneira cada vez mais sofisticada.
O avanço dessas organizações já ultrapassou as fronteiras brasileiras. As facções nacionais mantêm conexões internacionais, atuam em rotas de tráfico que cruzam continentes e movimentam recursos em diversos países. Não por acaso, recentemente, os Estados Unidos adotaram medidas mais duras em relação a organizações criminosas transnacionais e passaram a enquadrar grupos como o PCC e o Comando Vermelho dentro de uma lógica de combate semelhante à utilizada contra organizações terroristas. Independentemente das discussões jurídicas e diplomáticas que isso possa gerar, o fato revela algo preocupante: o problema deixou de ser apenas brasileiro e passou a ser visto como uma ameaça internacional.
Naturalmente, a soberania nacional deve ser respeitada. Mas é impossível ignorar o constrangimento de ver organizações criminosas surgidas em nosso território alcançarem um grau de poder capaz de atrair a atenção das maiores potências do mundo.
Enquanto isso, cidades do interior que durante décadas desfrutaram de relativa tranquilidade observam, com preocupação, o avanço desse fenômeno. Nossa Rio Preto continua sendo uma excelente cidade para viver, mas também sente os reflexos de uma realidade que já não se limita às capitais ou às regiões de fronteira.
A verdade é que o Brasil parece estar diante de um desafio que vai muito além da segurança pública tradicional. O que está em jogo não é apenas o combate ao crime, mas a capacidade do Estado de impedir que organizações criminosas acumulem riqueza, influência e poder em escala cada vez maior.
A pergunta que precisamos fazer não é se o crime organizado está crescendo. Os fatos mostram que está. A verdadeira questão é saber até quando o Estado brasileiro continuará correndo atrás de organizações que parecem estar sempre um passo à frente.
Henry Atique
Advogado, Professor, ex-Presidente da OAB Rio Preto e Conselheiro Estadual da OAB/SP