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ARTIGO

Para que o sertão não seja esquecido

Escrevo porque acredito que um povo sem memória acaba esquecendo de si mesmo

por Jocelino Soares
Publicado em 02/08/2026 às 00:55
Jocelino Soares (Divulgação)
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Jocelino Soares (Divulgação)
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Dia desses, em conversa com meu amigo Luiz Fernando Rimoli, médico dos bons de Olímpia, ele me perguntou por que insisto em escrever sobre a roça, sobre as velhas vendas de beira de estrada, os carros de boi, os fogões a lenha, as festas de São João, os lampiões, os boiadeiros, os caboclos de chapéu de palha as caboclinhas nas janelas e, até da cambuquira.

Imagina que seja apenas saudade.

Não é.

Saudade, sozinha, olha apenas para trás. O que me move é outra coisa: é o medo de que o tempo apague as pegadas de um povo que ajudou a construir este sertão paulista.

Vivemos numa época em que tudo acontece depressa. As notícias envelhecem em poucas horas; as conversas foram substituídas pelas telas; as portas permanecem fechadas; e os vizinhos, muitas vezes, já não sabem os nomes uns dos outros. Enquanto isso, um pedaço vital da nossa história vai desaparecendo em silêncio.

Quem contará às crianças que existiam vendas onde o café era servido antes mesmo da compra? Quem lhes falará dos boiadeiros que cruzavam as estradas levantando poeira, dos mutirões para erguer uma casa, das rezas de terço nas varandas, dos bailes de sanfona, das quermesses iluminadas por lampiões, dos quintais cheios e do cheiro do pão saindo do forno de barro?

Se ninguém contar, parecerá que nada disso existiu.

As cidades crescem. O progresso é necessário e bem-vindo. Mas progresso não pode significar amnésia. As árvores só desafiam os ventos porque têm raízes profundas. As pessoas também.

Quando escrevo uma crônica, não estou apenas recordando um tempo antigo. Estou tentando guardar um jeito de viver que ensinou valores que continuam atuais: a palavra empenhada, o respeito aos mais velhos, a solidariedade entre vizinhos, a simplicidade, a gratidão e a boa prosa ao redor de uma mesa.

Talvez, daqui a muitos anos, alguém encontre um destes textos numa estante empoeirada. Quem sabe um neto, um bisneto ou um jovem curioso queira descobrir como era a vida dos caboclos do interior. Se isso acontecer, já me darei por satisfeito.

Porque compreenderá que havia riqueza onde muitos enxergavam pobreza. Havia sabedoria onde alguns viam apenas simplicidade. Havia felicidade onde bastava um café quente, a sombra de uma mangueira e uma conversa sem pressa.

Escrevo porque acredito que um povo sem memória acaba esquecendo de si mesmo.

Essa é, Luiz Fernando, a verdadeira razão das minhas crônicas: não escrevo apenas para contar como era o sertão paulista. Escrevo para impedir que ele, em sua essência, seja esquecido.

Jocelino Soares
Artista plástico, pós-graduado em Arte-Educação e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.