Para dissipar as sombras
É direito da população conhecer, dentro dos limites impostos pelo sigilo judicial, ao menos os contornos gerais do que ocorreu no ataque hacker contra a Empro

Praticamente um ano após a pane que paralisou os sistemas da Prefeitura de Rio Preto entre 5 e 11 de junho do ano passado, o cidadão rio-pretense ainda não sabe ao certo o que ocorreu, quais dados foram vazados, se houve desvio de recursos públicos e, sobretudo, se a Empro tem capacidade humana e tecnológica para evitar que novos ataques como esse ocorram.
Na semana passada, o Ministério Público denunciou três servidores da Empro, empresa municipal que cuida de todo o aparato tecnológico da administração, por associação criminosa, invasão de dispositivo informático e inserção de dados falsos em sistema de informações. Todos os três são funcionários de carreira, concursados há mais de dez anos.
É compreensível que uma investigação desse porte, que envolve dados sensíveis de praticamente todos os munícipes, esteja sob sigilo. Porém, não é razoável que absolutamente nada, nem mesmo os nomes dos acusados, tenha sido tornado público.
É curioso que o trio continue no quadro de funcionários da Empro, um ano após o ocorrido. Por meio de nota, a empresa afirmou que dois deles estão afastados, com vencimento, desde setembro de 2025 - ou seja, continuam recebendo religiosamente seus salários em casa. Já o terceiro denunciado solicitou seu afastamento, sem vencimento, em março do ano passado - três meses antes do ataque cibernético.
Artigo assinado pelo prefeito de Rio Preto, Coronel Fábio Candido (PL), publicado no Diário no último dia 31, traz acusações graves sobre o que poderia ter ocorrido em junho do ano passado. Segundo o prefeito, o município estava sujeito a uma "estrutura pública vulnerável, fragilidade tecnológica e sucessivos problemas internos" e que "o ataque hacker sofrido pela Prefeitura, em junho de 2025, não foi um fato isolado".
O Coronel cita ainda, de maneira generalizada, o envolvimento de "servidores e ex-presidentes da Empro" - sendo que a denúncia não fala nada de ex-presidentes. Ainda de acordo com o prefeito, houve "desvios, fraudes e danos milionários a Rio Preto".
Por óbvio, com base nessas afirmações, o Coronel teve acesso à denúncia que está sob sigilo, já que a Prefeitura é parte do processo por ser vítima. Não se cobra do prefeito que quebre esse sigilo, uma vez que ele pode responder criminalmente caso o faça. De qualquer maneira, seria importante que algumas sombras fossem afastadas envolvendo esse ruidoso caso.
É direito da população conhecer, dentro dos limites impostos pelo sigilo judicial, ao menos os contornos gerais do que ocorreu. Afinal, foi o contribuinte quem financiou a estrutura tecnológica da Empro, quem arcou com os prejuízos decorrentes da paralisação dos serviços públicos e quem confiou à empresa municipal a guarda de informações pessoais e sensíveis.
Mais do que apontar culpados, é necessário restaurar a confiança. Transparência não compromete investigações; ao contrário, fortalece as instituições e demonstra respeito ao cidadão. Um ano depois do maior ataque cibernético já sofrido pela administração municipal, Rio Preto ainda espera respostas objetivas sobre o alcance dos danos, a eventual exposição de dados dos munícipes e as medidas adotadas para proteger o patrimônio público digital. Enquanto essas informações permanecerem envoltas em sombras, as dúvidas sobre o caso continuarão maiores do que as certezas.