Força estranha
Eddington, professor de Cambridge, conseguiu ratificar, com provas verossímeis, o que Einstein teoricamente descobrira: o espaço e o tempo são curvos

a Eurípedes Alves da Silva
Tenho meditado sobre a Força Estranha poetizada por Caetano Veloso. O artista explica seu canto como sujeito ingerências de um acontecer misterioso: “Por isso uma força me leva a cantar / por isso essa força estranha no ar...”. No show com Maria Bethânia, em 1978, e aludindo às causas que a trouxeram ao Rio de Janeiro, reconhece: “É engraçado a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer!”. Em ‘Milagres do Povo’ (2011), entoa versos transcendentes: “Quem é ateu e viu milagres como eu / sabe que os deuses sem Deus / não cessam de brotar”. Os céticos justificam o vigor desse suceder inexplicável como simples coincidências; para outros, intercessões do além.
Acabo de assistir ao telefilme britânico ‘Einstein e Eddington’ (2008, HBO Max), de Philip Martin. Enfoca situações que levaram à confirmação da hipótese cognitiva da Teoria Geral da Relatividade, de Albert Einstein. Por um lado, o astrofísico inglês Arthur Eddington era seguidor da seita quaker que professa a luz de Deus em cada pessoa. De outro, o físico judeu-alemão Einstein acreditava num poder superior, uma “força estranha” a gerir o cosmo, diferente em essência da crença judaico-cristã.
Ao fim da Primeira Guerra, ingleses e alemães eram inimigos. Um teórico inglês aplicando-se em comprovar descobertas de um pensador alemão era um insulto geopolítico indesculpável. Ademais, seja na Alemanha ou em qualquer nação, as conjeturas de Einstein confrontando o cientista Isaac Newton sinalizavam uma profanação. Nos melhores centros produtores do conhecimento, era impensável que as leis newtonianas de funcionamento do universo contivessem lacunas.
Einstein, pobre, separado dos filhos e amigos, fora vetado de entrar na Academia Alemã de Ciências. Para provar que ele estava certo, Eddington intuía, penetrando na inteligência do alemão, que uma estrela deveria aparecer numa foto levemente deslocada pela ação da gravidade do sol. Isso só seria possível se ele a fotografasse durante o eclipse total que aconteceria em 29 de maio de 1919. À última hora, obteve escassos meios para transportar câmeras e telescópios ao melhor ponto de visão: a ilha africana de São Tomé e Príncipe. Embora na véspera a chuva o desestimulasse, Eddington agarrou-se à fé: “Se pudermos ver o azul do céu seremos cientistas em ação. E vamos contemplar a poesia do universo”.
Faltando poucos minutos para o instante crucial, um sopro interferiu na Natureza. De modo imponderável, as nuvens se abriram e o sol raiou. Veio o eclipse, estrelas brilharam. Como quem mede a ciência com a régua dos milagres, Eddington, professor de Cambridge, conseguiu ratificar, com provas verossímeis, o que Einstein teoricamente descobrira: o espaço e o tempo são curvos. E tudo se move por uma Força Estranha. Quiçá o alento divino, nas engrenagens silentes das galáxias.
ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos