VIVA 2026
O feminismo não é contrário à natureza feminina nem encoraja o ódio aos homens. É uma luta por dignidade, pelo direito à liberdade e à vida

O fim de ano, mais parecido com o fim do mundo, chegou. Em casa, ceias e festas; nas ruas, a fome se manifesta. De forma indigesta, para muitos “cristãos”, estender a mão tornou-se condenável. O ser se apequenou o ter se agigantou. O ódio viralizou e a compaixão virou defeito. Tempos estranhos. Pobres defendem a perda de direitos, homens naturalizam a violência, mulheres em marcha de retrocesso romantizam a submissão e a dependência.
Sem distinção de classe, de socialite à trabalhadora, de Ângela Diniz a Tainara Souza, de Doca Street a Douglas Alves, de tiro a atropelamento, do milênio passado a dois minutos atrás, o resultado é sempre o mesmo: homens inseguros e mulheres assassinadas. Para muitas delas, o fim do relacionamento significa o fim da vida. Apesar dos avanços nas políticas públicas, nos tribunais e no senso comum, a realidade desumaniza a vítima e vitimiza o agressor.
Até 2023, a lei ainda protegia feminicidas sob a tese de “defesa da honra”. Em 2025, borbulharam campanhas difamatórias contra a Lei Maria da Penha. Discursos de ódio e a falta de investimento em prevenção contribuíram para o aumento da violência. No Brasil, apenas no primeiro semestre, foram 718 casos de feminicídio (aumento de 45% por arma de fogo), 3,7 milhões de mulheres vítimas de violência doméstica e 33.999 estupros. Isso sem considerar os casos não denunciados.
O declínio civilizatório tem normalizado a barbárie e barbarizado o normal. Questões irrelevantes dominam o debate público, enquanto a realidade brutal é ignorada. Vivemos uma espécie de sonambulismo social: ignorância absoluta ou desprezo consciente pela vida?
Nas redes digitais, grupos de incels (celibatários involuntários) e red pills (defensores de relações desiguais de gênero) hostilizam mulheres e homens fora de seus padrões de masculinidade. Para esses sujeitos, a igualdade de gênero abala a crença na autoridade e dominação masculina. Culpam as mulheres por seus fracassos emocionais e rejeições afetivas, naturalizam a humilhação e a desumanização feminina. Em alguns casos, incitam violência, perseguição e ataques nas redes sociais.
Nos últimos anos, o discurso sobre esposas sem trabalho, cuidadoras do lar e antifeministas aumentou. Influenciadoras glorificam abrir mão da autonomia como solução para o medo da instabilidade econômica, afetiva e social. Esse retrocesso combina desinformação e ingenuidade. A nostalgia fabricada, que nunca existiu de forma justa na vida real, é um sintoma perigoso. A ausência de pensamento crítico cobra um preço alto: paga-se com o destino, com a perda da voz, da liberdade e da dignidade. A vida perfeita idealizada e monetizada nas redes sociais é fictícia. Onde falham o Tico e o Teco, sobram asneiras via Instagram e TikTok.
Em contextos patriarcais, mulheres são convencidas de que permanecer em situações de abuso é edificar o lar e a família. Comunidades online e algoritmos reforçam conteúdos com soluções simples para inseguranças complexas. Muitas mulheres aprendem, desde cedo, a associar valor pessoal à obediência e à aprovação masculina. A pressão comunitária e religiosa, com forte apelo moral, apresenta o feminismo como um risco à família, à fé e à ordem social, e recompensa antifeministas como “mulheres certas”.
Diferentemente da idiotia contemporânea, o feminismo não é contrário à natureza feminina nem encoraja o ódio aos homens. É uma luta por dignidade, pelo direito à liberdade e à vida. Que no próximo ano, os homens sejam mais seguros e as mulheres sejam e permaneçam mais vivas.
Viva 2026. Vivas em 2026.
MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras