PAINEL DE IDEIA

Viagem a Ítaca

Enquanto ‘Ilíada’ realça a força e beleza física de Aquiles, a ‘Odisseia’ sublima qualidades morais, inteligência e perseverança de Odisseu (Ulisses entre os romanos)

por Romildo Sant’anna
Publicado em 16/08/2026 às 00:34
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
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Em 24 cantos, a ‘Odisseia’ (870? a.C.) encena venturas e desventuras de Odisseu na volta a Ítaca, sua terra-natal. Em sucessivos percalços, a epopeia metaforiza a viagem oceânica como desbravamento interior, travessia do estado em vigília às fibras do inconsciente. O herói, nitidamente humano, é atormentado por remorsos pelas chacinas em Tróia e, soberbo, punido por Poseidon, o Deus dos Mares. Suporta dez anos de déu em déu a enfrentar desafios: a ira oceânica, tentações, monstros devoradores de gente, metamorfoses de amigos e bruxarias inauditas, sobre-humanas. Recitado e cantado desde os gregos antigos, o poema chama a atenção para as virtudes da coragem, temperança, o valor das provações para conquistas do conhecimento e o padecimento do corpo para elevação da alma.

No volumoso ‘Paideia’ (7ª. ed., Martins Fontes, 2024), o humanista alemão Werner Jaeger, citando o filósofo Platão, louva as obras de Homero, sobretudo a ‘Odisseia’, não só como primor estético, mas como fonte de ensinamentos e exemplos de superação, guia de conduta e modelo de vida. Enquanto ‘Ilíada’ realça a força e beleza física de Aquiles, a ‘Odisseia’ sublima qualidades morais, inteligência e perseverança de Odisseu (Ulisses entre os romanos). Assim, de boca em boca, e sentidas como nascentes da poesia ocidental, as obras sintetizam nossa presença no mundo: corpo e espírito.

Faço as digressões para enaltecer o filme ‘A Odisseia’ (2026), do diretor britânico Christopher Nolan, roteirizado a partir do poema homônimo. Óbvio, são contexturas socioculturais e artísticas distintas: enquanto a épica de Homero é representação estético-filosófica do mundo antigo a estender-se nos tempos, o filme é representação da representação, na estilística e cosmovisão dos dias atuais. Avulta-se nas telas dos cinemas uma sedutora tradução em linguagens diferentes ou, como diria o crítico e poeta Haroldo de Campos, realiza-se uma “transdução” estética. Com engenhosidade inventiva, os discursos se cruzam, entreolham-se, parafraseiam-se. Desse modo, o poema homérico é literatura em alto grau de poesia; o filme é transdução em alto grau de espetáculo poético.

Anterior ao filme de Christopher Nolan, o ótimo ‘O Retorno’ (2024), do cineasta Umberto Pasolini, elege o canto final e realista da epopeia, com o regresso de Odisseu a Ítaca onde o espera a esposa Penélope. Exibe feridas físicas, emocionais, e o renascer do personagem a transmudar-se do náufrago esfarrapado ao amado-amante restaurado. Utilizei agora mesmo o verbo “renascer” que, no mito, remeteria ao ser humano que parte, transpõe obstáculos, purifica-se e retorna a si mesmo. Na epopeia do poeta grego, como nos cinemas e em outros palcos, Odisseu oculta-se como o Ninguém que, ao mesmo tempo, é Todos. Ele navega em muitos sonhos. E combate os fantasmas que nos atormentam.

ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos