Use Your Illusion
Exploro com eles o significado da ilusão sob a ótica da literatura; algo que vai além de um simples engano. Ela pode representar uma imaginação produtiva, dependendo de como escolhemos enxergar o mundo ao nosso redor

Não sou professor. Ainda assim, arrisco-me a dar algumas aulas. Meus alunos? Meninos da Fundação Casa. E a “matéria”? Costumo começar mais ou menos assim: “Talvez vocês nunca tenham ouvido falar de Miguel de Cervantes ou de Fiódor Dostoiévski...”. A partir daí, apresento brevemente a vida desses autores e desenvolvo a aula, guiado por um tema que também atravessa obras como “Dom Quixote” e “Crime e Castigo”: a ilusão.
Mas por que falar desse assunto? Porque é muito comum ouvir desses adolescentes que eles se “iludiram” com o crime. Partindo disso, exploro com eles o significado da ilusão sob a ótica da literatura; algo que vai além de um simples engano. Ela pode representar uma imaginação produtiva, dependendo de como escolhemos enxergar o mundo ao nosso redor.
O crítico literário russo Vladimir Nabokov, em aulas ministradas em Harvard (1952), propôs uma leitura de “Dom Quixote” baseada em suas vitórias e derrotas. Ao longo de quarenta confrontos gerados por suas fantasias, o Cavaleiro da Triste Figura triunfa em metade deles e fracassa na outra metade. Chamo a atenção dos meninos para um ponto revelador: quando vence, Dom Quixote atua sob efeito de uma visão generosa do ser humano, como ao defender a liberdade da camponesa Marcela, injustamente maldita por desejar ser livre. Já nas derrotas, age frequentemente projetando o mal onde ele não está, como nas batalhas contra magos imaginários.
Algo semelhante ocorre com o jovem Raskolnikov. Ao decidir assassinar a velha agiota, o personagem de Dostoiévski passa a se perceber como um Napoleão, julgando-se autorizado a transgredir limites morais e legais. Seus crimes nascem de uma alucinação sombria: a crença de que a vida humana pode ser reduzida a um cálculo utilitário, no qual existências consideradas “inúteis” poderiam ser descartadas. Sua redenção, porém, começa no sofrimento e na expiação, quando ele reconhece em Sônia a presença do amor, da compaixão e da dignidade e, a partir desse encontro, vislumbra a possibilidade de outro caminho.
É isso que procuro mostrar aos meus jovens alunos. A grande literatura, aquela que atravessou o tempo e se firmou como expressão da experiência humana, ensina-nos que existem ilusões perversas, profundamente destrutivas. Elas decorrem da negação do outro, da desvalorização da vida alheia e do egocentrismo. Em contrapartida, quando os protagonistas literários deixam de ser ensimesmados e passam a reconhecer a alteridade (a capacidade de se colocar no lugar do outro), o peso da ansiedade se alivia, a decisão sobre o que é correto se torna mais clara, o frescor da paz lhes toca o rosto e a alma, enfim, encontra espaço para se alegrar.
Aproveitando a passagem da banda Guns N' Roses por nossa cidade, preparei minha próxima aula incorporando o arco psicológico das canções “Don't Cry”, “November Rain” e “Estranged”, que estruturam o núcleo emocional dos álbuns Use Your Illusion I e II. Ainda que não componham uma narrativa linear, elas abordam temas como a desilusão e a renovação das expectativas. Se a “chuva fria de novembro” despedaça o sonho de um “jovem coração” que “não consegue esperar”, “não chore esta noite; há um paraíso acima de você”.
Quem sabe eu consiga expor, com um pouco mais de clareza e até de lirismo, que não devemos abandonar todas as ilusões. É preciso, isso sim, diferenciá-las, cultivar aquelas que nos elevam e utilizá-las como força criadora. Conceber um mundo melhor para nossa família e para nossa comunidade. Porque é essa capacidade de imaginar o bem para os outros, esse impulso quase utópico, que nos fortalece e dá sentido à nossa caminhada, sempre inacabada, em direção a alguma forma de vitória.
EVANDRO PELARIN
Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras