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PAINEL DE IDEIAS

Uma invenção magnífica

por Evandro Pelarin
Publicado há 3 horasAtualizado há 3 horas
Evandro Pelarin (Divulgação)
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Evandro Pelarin (Divulgação)
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O educador Ilan Brenman lançou um alerta: a “adultização” precoce de meninos e meninas ameaça aquilo que nos custou séculos para construir. Crianças sempre existiram, mas a infância foi uma invenção nossa. E, por ser uma criação humana, pode também ser desinventada, assim como a adolescência. Reconhecer essas fases da vida e valorizá-las é a nossa urgência.

O historiador francês Philippe Ariès, citado por Brenman, demonstra que a sociedade medieval mal enxergava a criança e ignorava o adolescente. Ao fim da tenra idade, em que a criança chegava a ser equiparada a um animalzinho e até sepultada como tal, ela logo se misturava aos adultos, sem etapas intermediárias. A altíssima mortalidade infantil moldava essa mentalidade. Montaigne, no século XVI, confessava ter perdido filhos pequenos “sem desespero”.

No Evangeliário do imperador Oto III, do século XI, a cena em que Jesus acolhe os pequenos, “deixai vir a mim as criancinhas”, retrata-as como adultos em miniatura, sem traços próprios da idade. Não era falta de técnica artística, mas ausência de um olhar que reconhecesse a infância como fase distinta da vida.

A virada veio devagar e nada linear. A partir do século XV, a arte começa a ver a criança em sua própria natureza. Na Madonna do Magnificat, de Botticelli (1483), e na alegoria pintada por Ticiano após a Batalha de Lepanto (1573-75), marcos visuais do início dessa transformação, surgem o “anjo-adolescente” e a criancinha com características enfim infantis. Já no século XVII, educadores defendem uma “quarentena” formativa para a criança, que ainda não estaria madura para o mundo adulto. Nasce aí o movimento de escolarização, que separou os menores do convívio com os mais velhos.

Vale observar uma coincidência que talvez não seja acaso. Foi mais ou menos a partir dessa separação, no século XVII, e do surgimento da escola, que as ciências técnicas conheceram seu avanço mais vertiginoso. Ao reservar um tempo protegido para aprender, a humanidade não apenas cuidou de seus filhos; aprimorou-se a si mesma. Proteger a infância, portanto, é também um investimento na própria espécie.

A literatura guardou o testemunho íntimo dessa descoberta. Tolstoi escreve: “Feliz, feliz tempo da infância, tempo que não volta!” Para ele, a alegria inocente e a necessidade de amor eram as únicas motivações da vida naquela idade. Ao narrar também a passagem para a adolescência, o instante em que percebemos que “existe outra vida, de outras pessoas”, ensina-nos a olhar cada fase como algo digno de respeito.

Mas a história faz idas e vindas. Como lembra Brenman, enquanto as crianças ganhavam símbolos próprios, como calças curtas, milhões eram submetidas ao trabalho extenuante na Revolução Industrial. O século XX trouxe conquistas, leis contra o trabalho infantil, o combate ao casamento precoce, e parecia ter firmado a infância como direito humano básico. Parecia.

A fragilidade da infância nos convida a uma reflexão mais profunda. Se o valor dessa fase parte da premissa de proteger o ser humano em sua condição vulnerável, essa proteção não pode prescindir do momento mais frágil de todos: a vida intrauterina. E é aqui que entra em cena a acuidade da mulher, a quem, em primeiro lugar e de maneira fiduciária, se confia o ser humano mais fraco e mais nobre do mundo. É a partir dele que se inicia o senso de responsabilidade protetiva que norteará toda a vida familiar e comunitária.

A infância e a adolescência foram lenta e duramente construídas. E, como toda invenção humana, podem ser desinventadas. Cabe a nós, não ao acaso, sustentar essa concepção. O nosso desafio consiste em lutar para que essa magnífica invenção humana, a infância, seja cada vez mais fortalecida.

EVANDRO PELARIN

Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras.