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PAINEL DE IDEIAS

Triste espetáculo

Lamentavelmente, o técnico cedeu à coação e teve seu contrato renovado. Para minha surpresa, o futebolista foi selecionado. A plateia foi ao delírio, como se tratasse de um brasileiro ilustre, com grandes feitos para a nação

por Merli Diniz
Publicado há 3 horasAtualizado há 3 horas
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Museu do Amanhã. Espaço onde Ciência, Arte e Inovação se encontram, sob as perspectivas de exploração do presente e expectativas quanto ao futuro. Lindo lugar. No entanto, achei ridículo e deprimente o exagero do evento organizado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para o anúncio da lista de convocados que integrariam a Seleção Brasileira para a Copa do Mundo que se avizinha. Uma festa tão escandalosa como se, para o País o fato tivesse enorme relevância e houvessem sido sanados os grandes problemas nacionais ou ainda, que tal fato viesse a modificar fundamentalmente, por exemplo, o modus operandi do toma lá dá cá, tanto no Congresso Nacional como nas demais instâncias da Federação, em relação às questões cruciais que se apresentam para o País, estados e municípios e que carecem de urgência em serem solucionadas.

Nelson Rodrigues, um dos maiores dramaturgos brasileiros, criou a expressão “complexo de vira-lata”. Ilustra muito bem tal comportamento nosso premiadíssimo filme "O Agente Secreto", sucesso mundial, indicado para quatro categorias do Oscar. Nesse contexto, não é de se estranhar que não tenha recebido tanta atenção, orgulho e festas dos brasileiros como a mera convocação da seleção nacional. Nelson Rodrigues, atualíssimo.

Quando o novo treinador assumiu como técnico da Amarelinha, comecei a admirá-lo, pois se preocupou em aprender nosso idioma em respeito ao povo que o recebeu tão bem, imagino eu, tendo resistido inicialmente a convocar um tal jogador que, além de não estar na forma física ideal, gosta muito de cair, de se posicionar, dedo em riste no nariz do árbitro, não suporta ser driblado nem contrariado, como se fosse a última cereja do bolo. “Menininho” mimado. Arrogante. Coberto de razão estava o técnico, apesar de a mídia, o tempo todo, bater na mesma tecla, como se tal figura fosse a salvação do escrete nacional.

Lamentavelmente, o técnico cedeu à coação e teve seu contrato renovado. Para minha surpresa, o futebolista foi selecionado. A plateia foi ao delírio, como se tratasse de um brasileiro ilustre, com grandes feitos para a nação. Reflito e, para mim, é difícil entender tanta admiração, mas, num esforço supremo, depois da divulgação das posições tomadas por uma parcela da população em relação às sandálias Havaianas e ao detergente Ypê, fica até compreensível.

Tenho muitas dúvidas sobre o desempenho do atleta, não obstante, aguardo que, diante de tanto reconhecimento recebido, apresente um desempenho brilhante e não tenha sido chamado para ficar no banco de reserva, somente para constar em seu currículo que participou de quatro Copas do Mundo. Anseio ardentemente estar completamente equivocada e, se isso acontecer, reconhecerei meu erro e o mérito do jogador, publicamente.

Destarte, é sempre bom lembrar, a fim de que não passe despercebido, se alguma vez presenciamos pelo menos a centésima parte de tamanho sensacionalismo quando das convocações da seleção de futebol feminina no Brasil. Para quê? São só mulheres.

E assim, la nave va.

MERLI DINIZ

Professora, advogada, poeta e cronista. Vice-coordenadora da Comissão de Direito e Literatura da 22ª Subseção da OAB Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.