PAINEL DE IDEIAS

Traição é fogo!

Infidelidade tem mais a ver com descompromisso com a relação, regulação da autoestima, medo da rejeição, uma ponte para a separação e confirmação da crença de abandono

por Mara Lúcia Madureira
Publicado em 26/08/2026 às 21:26Atualizado em 26/08/2026 às 21:35
Mara Lúcia Madureira (Mara Lúcia Madureira)
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Traição é ato deliberado que diz muito mais sobre quem trai do que sobre a qualidade da relação. Infidelidade não se explica por insatisfação conjugal, mas por necessidades subjetivas de quem trai. Não se procura fora o que falta na relação, mas o que falta em si. O terceiro é buscado não porque o parceiro deixou de satisfazer, mas pela necessidade de confirmação externa do infiel.

A raiva, falta de amor, de atenção e o abuso de álcool não são motivos plausíveis. Infidelidade tem mais a ver com descompromisso com a relação, regulação da autoestima, medo da rejeição, uma ponte para a separação e confirmação da crença de abandono. Diante da insegurança, a busca recorrente de novos parceiros funciona como rota de fuga da intimidade ou um tipo de garantia preventiva contra a dependência emocional.

É possível desejar uma pessoa e permanecer ligado a outra; sentir culpa e continuar; destruir aquilo que se pretende proteger. A destruição nem sempre acontece por falta de sentimentos. Às vezes, é por sentir intensamente e temer a grandiosidade desse sentir. O medo faz cálculos. Quem não se sente digno de ser amado não confia na entrega total do outro. Por não saber somar, subtrai o amor da relação e deposita afetos onde o risco da rejeição não representa grande perda.

Sentir-se desejado por outra pessoa reduz, temporariamente, a insegurança, eleva a frágil autoestima ou oferece uma espécie de salvaguarda emocional contra a possibilidade de abandono. Não raro, é justamente por medo de perder quem se ama que a pessoa se envolve em comportamentos que ameaçam o vínculo que deseja preservar. Esse é o paradoxo da autoprofetização. O sujeito testa os limites do outro até a ruptura e, desse modo, confirma suas suspeitas antes infundadas.

Existem, porém, situações que não podem ser ignoradas. Há pessoas desprovidas de empatia, que veem seus parceiros como objetos para atender às suas demandas, manter a aparência de família e representar papéis sociais. Para elas, o amor não tem fronteiras. O casamento e as convenções sociais não determinam quem pode pertencer a quem. O acordo de fidelidade não passa de um roteiro cínico a ser descumprido. Não importa o que e quanto o outro se sacrifique pelo bem da relação, elas sempre estarão disponíveis para a infidelidade e se vangloriam disso.

O padrão comum é culpar o outro, especialmente a mulher. Priorizou demais o trabalho, os filhos e a própria vida ou não foi boa o suficiente para manter o marido. Retira-se a responsabilidade moral do homem e a transfere para a mulher. O primeiro é apresentado como alguém guiado por necessidades inevitáveis e a segunda, como responsável pela manutenção do desejo do parceiro. Quando o homem trai, a culpa é da esposa; quando a mulher trai, é por falha de caráter. Essa assimetria é uma clássica e ridícula expressão da moral patriarcal.

As catástrofes íntimas começam, silenciosamente, nas relações, e podem ser devastadoras para aqueles que estão dentro delas. Uma transgressão privada produz uma cadeia de eventos destrutivos. Por fim, descobre-se, tragicamente, que nenhum ser humano vive em paz sem vínculos afetivos, lealdade e consequências.

O fogo que arde e ilumina é o mesmo que consome tudo e fere os envolvidos.

MARA LÚCIA MADUREIRA

Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras