Tire isso de mim
Como ensinava Carlos Maximiliano, a essência do Direito está em compreender que “a justiça deve ser caridosa, mas a caridade deve ser justa”

Dia desses, estudantes me perguntaram se, em meus vinte e nove anos de trabalho com crianças e adolescentes, houve algum caso que mais me marcou. Como a pergunta é recorrente, costumo responder que não há um episódio específico gravado na memória.
Nessa última conversa, porém, talvez pelo peso do tempo, que nos inclina a revisitar o caminho percorrido, pus-me a reexaminar minhas lembranças. Encontrei finais felizes. Mas fiz questão de lhes dizer: não por mérito exclusivo da minha intervenção. E, mesmo nos poucos casos em que talvez eu tenha contribuído para um bom desfecho, aprendi que devemos rezar e pedir a Deus que nos ajude a esquecer o bem eventualmente praticado.
Expliquei-lhes que, se tomarmos as boas ações que somos capazes de realizar como medida primordial do nosso caráter, corremos o risco de nos orgulhar delas. E o orgulho é uma armadilha sutil: pode nos levar a sentir credores do mundo, tornando-nos passivos, à espera de compensações. Esse é um grande equívoco. Reconhecer-nos devedores, por outro lado, especialmente da comunidade, mantém-nos comprometidos com o serviço, sempre prontos a estender a mão ao próximo.
Foi então que lhes contei um dos casos mais comoventes que vivi: o de um menino de catorze anos. Isso ocorreu há muito tempo, quando eu trabalhava em Fernandópolis. A polícia o apreendeu com drogas. Ainda guardo aquela audiência no computador. A acusação era de tráfico: o garoto vendia para sustentar o próprio vício. Não tinha pai, que abandonara a família e desaparecera. A mãe criava sozinha outros quatro filhos. Uma família carente.
O menino entrou algemado. Magro, frágil. Falava devagar, como se as palavras lhe pesassem. Parecia ter algum rebaixamento intelectual. A princípio, mantinha o olhar perdido, fixo num ponto distante. Depois, baixava a cabeça, como se a vida, até ali, tivesse sido apenas uma sucessão de tristezas. Demorou até que conseguíssemos conversar. Meu dever, antes de tudo, era ler a acusação. Tive a impressão de que ele mal a escutava. Ainda assim, confirmava tudo: “É verdade, senhor”, repetia a cada parágrafo lido.
Do outro lado da mesa, a mãe chorava. Não era um choro estridente. Era o choro de quem não tem para onde ir. Lembrei-me do desalentado Marmieladov, personagem emblemático de “Crime e Castigo”, quando pergunta a Raskólnikov: “O senhor sabe o que é não ter para onde ir?”. Esse “ir”, evidentemente, não diz respeito a um lugar físico, mas à perda de sentido, à falta de horizonte, à dolorosa sensação de estar sem destino na própria vida.
O menino passou a alternar o olhar entre a mãe e mim. Quando, enfim, fixou os olhos nos meus, disse que usava drogas e que não conseguia parar. E então pronunciou a frase que jamais esqueci: “Juiz, tire isso de mim”. Referia-se ao vício.
Pedi que lhe retirassem as algemas e que se sentasse ao lado da mãe. Abraçaram-se longamente, chorando juntos. A cena comoveu todos os presentes, num misto de compaixão e impotência. Lembrei-me então de outra figura dramática de Dostoiévski, Dmitri, em “Os Irmãos Karamázov”, ao afirmar que nem todas as portas estão fechadas e que a justiça sabe por onde entrar.
Como ensinava Carlos Maximiliano, a essência do Direito está em compreender que “a justiça deve ser caridosa, mas a caridade deve ser justa”. Naquele momento, fazer justiça significava retirar aquele menino do cárcere e encaminhá-lo a um tratamento digno e efetivo; oferecer à família acompanhamento mais próximo pela rede pública; mobilizar a comunidade para cercá-los de cuidado. Porque a justiça verdadeira, forte e transformadora não se realiza sozinha, numa sentença. Ela se constrói coletivamente.
EVANDRO PELARIN
Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras