Tempo, trauma e consciência
Toda exatidão se torna inútil quando a dor o dilata, o prazer o contrai, o trauma o congela e a criação o suspende

O tempo, esse construto apropriado pela obsessão produtivista, pode ser mensurado com precisão física. Toda exatidão se torna inútil quando a dor o dilata, o prazer o contrai, o trauma o congela e a criação o suspende. A temporalidade psíquica governa decisões e sentidos, mas permanece marginalizada, sem interferência da realidade na memória e na consciência.
No labirinto das ideias, todos os tempos coexistem. Um segundo pode conter uma vida e uma vida pode se reduzir a uma prisão sequencial de eventos. O que não foi simbolizado permanece ativo. Traumas rompem a continuidade temporal, criam um eterno presente de ameaça e repetição, em que o passado permanece e não há imaginação de futuro.
Entes pensantes cogitam não haver um ser estável, apenas o devir contínuo. O tempo não existe fora da mente. Passado é memória, futuro é expectativa, presente é atenção. O tempo dividido é falseado. Pode ser relativo ao observador. Passado, presente e futuro são perspectivas dentro do espaço-tempo — talvez um efeito, não uma entidade.
Para os teóricos da mente, o inconsciente é atemporal. Conexões significativas se estabelecem sem causalidade temporal. Na narrativa, tudo se torna presente acelerado, sem duração nem sentido. Pode ser fluxo, ilusão, relação ou entropia. O tempo afetivo é alinear, não passa; apenas nos constitui a partir da forma como o vivenciamos.
O congelamento do tempo psíquico produz reações desproporcionais: sensação de urgência ou colapso diante de pequenos gatilhos; compulsões, recaídas, explosões emocionais, dificuldade em planejar, esperar e sustentar processos. Não é falta de vontade, é o desencontro do ser consigo mesmo.
O trauma é tempo fragmentado, não se limita ao evento decorrido. O que não pôde ser vivido no tempo certo — sentido, nomeado e elaborado — fica fora da narrativa e retorna como sintoma e repetição. Não basta lembrar; é preciso reinscrever a experiência no tempo e organizar o sentido. Uma fala de meia hora pode conter décadas emocionais. Meio século pode passar sem que nada se mova, quando o tempo interno não está disponível. Superação requer sincronização entre linguagem e maturidade emocional.
O tempo psíquico não obedece ao calendário; luta com silêncios e busca palavras. Depressão é tempo imóvel, sem promessa ou acesso ao futuro. O passado não se organiza como memória, mas como culpa ou fracasso. Ansiedade é tempo acelerado demais: excesso de futuro no agora. Não há espera ou ponderação, apenas urgência e certeza. Euforia é tempo solúvel, distorção temporal oposta à depressão. O presente é absoluto e o futuro, imediato. Não há limites ou consequências. Abuso de substâncias é tentativa de regular o tempo interno. Cura é restituição da temporalidade — domínio da angústia na espera, lembrar sem reviver e planejar sem colapsos.
O tempo emerge da relação entre consciência e universo. O presente se apresenta com resquícios do passado e expectativas de futuro. Passado, presente e futuro são dimensões simultâneas de consciência que convergem na experiência e na transição.
MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras