Sobrenomes, apelidos
Genealogias tornaram-se senhas para as conjugações de possuir e mandar. Valia aos fidalgos o lastro dos antepassados, o nome tão extenso como latifúndios

No princípio, o mundo então pequeno, as pessoas se reconheciam por si mesmas, bastava tê-las nos olhos. Para referi-las, uns fonemas: Eva, Abel, Esaú, Lia... Mas, por atenderem às exortações das alturas e, sobretudo, por gozarem nisso, os viventes foram fecundos e se multiplicaram. E, em pouco, a terra se viu apinhada de Sofias, Davis e Noés, tantas e tantos que careciam de especificidade: “Severino da Maria, do finado Zacarias, lá da Serra da Costela, limite da Paraíba”. Porém, como isso inda dizia pouco, impuseram-se apelidos qualificativos: Ivã, o terrível, Isabel, a Redentora...
Por necessidade identitária inventaram-se os sobrenomes. A se lembrarem do torrão natal, patriarcas fizeram seus herdeiros os de Coimbra, de Assis, de Toledo e Holanda, Romanos, Parises e Toscanos. Também os do Vale, do Rego, Pedrosos, do Prado, do Monte e Monteiros, do Porto, da Costa, da Rocha, Salinas, Barrosos e Ribeiros. Atributos de progenitores se desenharam nos Calvos, Penteados, Barbosas, Cândidos, Brancos, Verdes e Morenos, Fortunatos, Furtados, Pacíficos, Morais, Valentes e Medeiros, Venturas, Severos, Clementes e Leais, Francos, Delgados, Amados e Amarais.
Brotaram linhagens de Ramos, Carvalhos, Oliveiras, Pimentas e Figueiras, Pinheiros, Arrudas, Pereiras e Nogueiras, também os Matos, Silvas e Silveiras. E de bichos: Aranhas, Galos, Pintos, Baratas, Leitões, Aguiares, Bezerras, Carneiros. Se o senhor de antanho achegava-se aos pescados, inauguraram estirpes de Peixotos, Sardinhas, Camarões e Vieiras. Da lida cotidiana batizaram-se os Barbeiros, Linhares, Machados, Espadas e Ferreiras, Trabucos, Ferros, Limas, Cunhas e Correias.
No correr do tempo e prevalência da cobiça (Caim significa possessão), idearam retalhar o chão e negociá-lo aos metros quadrados. Para o usufruto de quase tudo, uns poucos se houveram no direito de extorquir os outros. E, mirando lucros até com o rabo dos olhos, acharam por bem espoliar os semelhantes, confiscando-lhes té mesmo os sobrenomes. Assim nasceram os dos Santos, de Jesus, dos Anjos, da Cruz e Sant’Annas, além dos que, de tão tíbias descendências, vieram à luz por milagres do próprio Nascimento.
Dessa trama urdiram-se iniquidades. E como cada fruto gera a própria semente, julgaram normal que os Lobos devorassem os Coelhos, os Leões aos Cordeiros. E foi assim desse jeito que se deram as invasões, o apoderar-se das terras. Genealogias tornaram-se senhas para as conjugações de possuir e mandar. Valia aos fidalgos o lastro dos antepassados, o nome tão extenso como latifúndios. Num país atlântico, Pedro II veio a ser Sua Alteza Real Dom Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga. E, na mesma sesmaria alastraram-se os Ninguéns, úteis a seus donos. Os Zés pequenos, dos Anzóis.
ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos