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PAINEL DE IDEIAS

Sobre o mal e o sofrimento

Ao encarnar-se, o Filho fez-se um de nós e levou a humanização às últimas consequências, na morte de cruz. Dentro desse fracasso surge vitorioso, pela ressurreição

por Evandro Pelarin
Publicado em 22/06/2026 às 20:36Atualizado em 22/06/2026 às 20:40
Evandro Pelarin (Divulgação)
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Mais uma vez, socorro-me do Cardeal Carlo Maria Martini, resenhado por Antônio Alves de Melo em “Diálogos Noturnos em Jerusalém”, e do biblista belga André Wénin, em texto do site da Unisinos. O Holocausto e mesmo as tragédias cotidianas, como a da mãe impotente diante do filho nas drogas, a das crianças sozinhas à noite enquanto a mãe sobrevive da prostituição, a dos animais maltratados, geram a tendência à paralisia incrédula e à indagação: onde está Deus? Diante do silêncio teofânico, muitos concluem que Ele não existe. E, se replicamos, retrucam: por que, então, o mal não acaba?

O mal, porém, nunca foi banido. Conforme Wénin, Deus não cria o mundo a partir do nada, mas de material caótico: as trevas, o abismo, o vento; e nada elimina. As trevas permanecem; o abismo continua, ainda que limitado. Ao criar, Deus nada destrói, nem mesmo o mal. A filosofia pouco avança sobre o tema; tampouco a fé cristã o explica ou justifica em termos teóricos, cingindo-se à crença em Jesus Cristo morto e ressuscitado. Para o cristão, o fim é, ao mesmo tempo, a esperança.

Deus não abole o mal, confirma Martini, por decreto divino ou grandiosa teofania. Ao encarnar-se, o Filho fez-se um de nós e levou a humanização às últimas consequências, na morte de cruz. Dentro desse fracasso surge vitorioso, pela ressurreição. Eis a proposta da fé cristã: o enfrentamento do mal, a paciência em meio às derrotas, a perseverança na esperança da vitória completa e definitiva do bem. É a garantia de que não lutamos em vão, mesmo quando episodicamente vencidos por forças potentes. “A fé é menos uma paz do que uma trágica esperança” (Albert Camus).

Há um sentido desde já vitorioso sobre todo o absurdo; com base nessa certeza, cabe-nos o combate cotidiano contra o mal em suas diversas manifestações: pessoais, sociais, culturais, econômicas, políticas, religiosas. Não sabemos como nem quando, mas um dia esse sentido revelar-se-á. E, se não podemos responder ao porquê, resta a pergunta: como viver com o sofrimento e a adversidade?

Martini sugere o caminho prático, pois a desgraça desafia-nos a reagir e nos provoca: o que posso fazer para mudar isto? Afinal, muita desgraça é produzida pelo ser humano, o que conduz ao engajamento político e ao compromisso com a justiça. E esse ser humano, produtor da infelicidade, pode ser cada um de nós, na medida em que, na pequenez das atitudes diárias, contribuímos para a degradação ambiental, a injustiça social, a desmoralização da política, as distorções que desfiguram o Evangelho.

Resta-nos, portanto, criar um sentido nas coisas ou mergulhar no não-sentido. Para o crente, a experiência do silêncio de Deus assemelha-se ao protesto de Jó e ao grito de Cristo na cruz; não expressões de desespero, mas de confiança, que não se deixa vencer e desemboca no comprometimento com os que sofrem. “Por que Deus não evitou a morte do meu marido?”, relata Martini, que assim conforta a amiga: “Não sei responder, mas, apesar do que aconteceu, confio em Deus e estou aqui a seu lado, partilhando a sua dor; sua dor é a minha também; choro com você; somos irmãos”.

Martini conclui: apesar de tanto absurdo, do mal e das desgraças, o sentido da beleza do humano atravessa a criação e a história, e dirá um dia a última palavra. É isto o que nos move, confiantes. Cabe-nos a missão de fazer com que essa última palavra, de um saboroso alívio, comece a ser balbuciada desde agora.

EVANDRO PELARIN

Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras.