Sobre guerras, medo e idolatria
Quando nações e comunidades são lideradas por sociopatas, o medo corrompe o sagrado e os laços fraternos. A ruptura moral e a perda de contenção levam os povos à idolatria

No início do século XX, a combinação de nacionalismo exacerbado, rivalidades entre potências, disputas territoriais, corrida armamentista, alianças militares rígidas e um assassinato, culminou na Primeira Guerra Mundial (1914–1918) e terminou com um acordo entre os vencedores (França, Reino Unido e Estados Unidos), que responsabilizaram a Alemanha pela Guerra e impuseram-lhe perdas territoriais, restrições militares severas e indenizações financeiras. Nas duas décadas seguintes, gestou-se o ovo da serpente, embalado pela Grande Depressão.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, o combo de especulação financeira excessiva, superprodução industrial e agrícola, desigualdade econômica, sistema bancário vulnerável à falência e a queda da confiança dos investidores, quebrou a Bolsa de Nova York e resultou em um colapso financeiro global, em 1929. No contexto de crise econômica, instabilidade social, fortalecimento de regimes autoritários, ascensão de ideologias expansionistas e militaristas e fracasso da diplomacia internacional, eclodiu o nazifascismo. Em 1939, a humilhada Alemanha invade a Polônia e começa a Segunda Guerra Mundial.
Em 1940, a capacidade humana para a destruição absoluta e a urgência em redefinir valores, direitos humanos e limites éticos eram evidentes. O horror do genocídio e da desumanização da Guerra moldaram profundamente o sentimento coletivo. Entre a esperança e o trauma, Drummond publica “Congresso Internacional do Medo”, um poema-retrato de uma época sombria e dolorida.
Antes das artes e da escrita, o assombro e o fascínio pelo místico já existiam. A crença em poderes e forças ocultas sempre confortaram e deram propósito à vida. E como nem só de coerência se vive, o ser humano ainda busca sentido onde a razão não alcança. Símbolos, ritos e mitos falam uma linguagem emocional e dialogam com vivências íntimas.
Antes das Grandes Guerras e de Drummond, a Bíblia nos conta que durante o Êxodo, o povo de Israel, ansioso e inseguro com ausência de Moisés, pediu a Arão que fizesse um deus visível para guiá-los. Arão criou um bezerro de ouro, que passou a ser adorado como divindade. O episódio ilustra a fragilidade humana, a tendência à idolatria e como grupos normalizam rapidamente condutas irracionais diante de incertezas.
Quando nações e comunidades são lideradas por sociopatas, o medo corrompe o sagrado e os laços fraternos. A ruptura moral e a perda de contenção levam os povos à idolatria. O caos, propositalmente criado por meio de desinformação, controles político e religioso, promove a imitação acrítica e o comportamento de massa dilui a responsabilidade individual.
Nos dias atuais, em meio à instabilidade geopolítica, com o enfraquecimento das organizações de segurança internacionais e aumento das guerras, o medo dos soldados, das mães e das igrejas, o medo dos ditadores e dos democratas, o medo da morte e de depois da morte e todos os outros medos cantados nos versos de Drummond ainda ecoam, como um raio fúlgido no céu da pátria, entre idólatras de figuras bovinas, políticos e religiosos corruptos.
MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras