Diário da Região
PAINEL DE IDEIAS

Silva em recortes da vida

Silva opunha-se em ser tratado como autor primitivista, por lhe parecer depreciativo. “Os primitivos são duros, chucros, acanhados; eu sou moderno, surrealista”

por Romildo Sant’anna
Publicado em 03/01/2026 às 15:25Atualizado em 03/01/2026 às 18:39
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
Galeria
Romildo Sant’Anna (Romildo Sant’Anna)
Ouvir matéria

Ferreira Gullar escreveu que “a arte existe porque a vida não basta”. Foi o mote da histórica retrospectiva “José Antônio da Silva – A Vida Não Basta”, em 2017, curadoria de Denise Mattar, na Galeria Almeida e Dale, São Paulo. Cinquenta telas de 1948 a 92 reviveram o rio-pretano multifacetário, inquieto, genial. Silva fez da vida, arte; da arte, a razão de sua vida. Entre 1976 e 85, concebeu o que ideava como “a união do crássico com o primitivo”. Seria clássica a cópia direta da realidade, como a fotografia. Produziu dezenas desses quadros e os chamara de “arranjos”. Rompendo limites entre a vigília e o sonho, consistiam em colar-se nas telas imagens de famosos, volteando-as com a pintura em seu estilo. Utilizava-se de fotografias e estampas de revistas. Assim, a confirmar que “a vida não basta”, desfazia-se dos enredos reais criando ilusórias figuras.

Entre as criaturas prediletas, Silva reinava como a principal. Num quadro, ostentava o autobiográfico “Romance da Minha Vida” (1949); noutro, está à janela de um casebre, tendo-se à porta uma das namoradas, a Fátima. Além dos simulacros de “mim-mesmo”, concebeu “arranjos” com Chico Xavier, Érico Veríssimo, Xuxa e Pelé, Dercy Gonçalves, Pietro Maria Bardi, Princesa Diane, Liz Taylor, Lima Duarte, Gal Costa, Alfredo Volpi...

Silva opunha-se em ser tratado como autor primitivista, por lhe parecer depreciativo. “Os primitivos são duros, chucros, acanhados; eu sou moderno, surrealista” – julgava-se. A mescla de fotos nas pinturas expõe sua sedução por apegos estéticos bastante divulgados nos decênios de 1960 e 70, como a Pop Art nova-iorquina, o Realismo Mágico hispano-americano, o Nouveau Réalisme francês e figuras cubistas de Picasso e Georges Braque. Em resultado, apropriações do mundo físico, reconfigurado como ficção.

Essa produção instaura-se como uma das peças-chaves para novas imersões críticas na obra do artista, pictórica e literária. Ressalta a fabulosa seiva em suas veias inventivas conquanto o surpreende em associações simbólicas com objetos já prontos, apropriados da realidade árdua, fugaz, e transfigurados em cenas saudosistas, utópicas dos sertões e mundo caipira.

Entre 1980 e 82, acompanhei quase que diariamente a produção dessas obras, fotografando poses de Silva a teatralizar gestos bizarros para os “arranjos”, como fotografando os trabalhos depois de finalizados. Os recortes de revistas e fotografias coladas nas telas se dissolveram com o tempo, restando somente o mexerico das formas em tintas a óleo. Os originais fotográficos digitalizados, de meu acervo, permitiram reproduções das figuras intactas: o extraordinário conjunto de 25 pôsteres doados por mim ao Museu de Arte Primitivista “José Antônio da Silva”, de Rio Preto. Quase todos se estragaram, como o próprio Museu que, tão desprezado, se deteriora.

ROMILDO SANT’ANNA

Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos