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PAINEL DE IDEIAS

Silêncio Cúmplice

Inacreditável o silêncio cúmplice das “seleções” participantes, como se nada houvesse acontecido, seus pares não tivessem sido constrangidos

por Merli Diniz
Publicado em 24/06/2026 às 17:55Atualizado em 24/06/2026 às 17:56
Merli Diniz (Merli Diniz)
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No transcorrer do mais badalado Campeonato Mundial de Futebol, a Copa do Mundo, episódios vergonhosos têm acontecido sem que os principais atores do espetáculo se manifestem, num silêncio cúmplice de subserviência que vai desde os mais inaceitáveis preconceitos, inclusive em relação à nacionalidade, como ocorreu com o árbitro somali Abdulkadir Artan, escalado pela FIFA para os jogos da competição, impedido que foi de entrar em solo norte-americano, tendo que retornar ao seu país, como se criminoso fosse. Nesse cenário conturbado, existem os que são intocáveis, como Messi, que não foi expulso, sequer cartão amarelo recebeu, apesar da violenta falta cometida contra o argelino Mandi. Arbitragem caseira.

Outro acontecimento vexaminoso foi a entrevista do presidente da FIFA, ocasião em que tentou justificar o impedimento imposto aos jogadores iranianos de se estabelecerem durante os jogos nos Estados Unidos. Nós não somos os reis do mundo, o que é verdadeiro, apesar da postura majestática da entidade. Ao contrário dessa falsa modéstia, Trump acha que é e os vassalos se ajoelham aos seus pés.

Tais ocorrências se coadunam com a música "Inversão de Valores" do grupo RAP Ritmo e Poesia Facção Central, que escancara a revolta com a hipocrisia social e o espetáculo usado como cortina de fumaça para ocultar os graves problemas sociais, as guerras por ganância de poder e riquezas em territórios alheios, como se a geopolítica fosse uma suave máquina, palestinos não fossem mortos pela guerra de Israel, a Rússia não matasse ucranianos, Estados Unidos não atacassem o Irã, não desrespeitassem a soberania de outros países, para ter todo o petróleo e demais riquezas que o laranja podre deseje.

Inacreditável o silêncio cúmplice das “seleções” participantes, como se nada houvesse acontecido, seus pares não tivessem sido constrangidos. Evidente. Ganham fortunas com a publicidade das marcas que são por elas apadrinhadas.

Messi mudo, Neymar e Mbappé calados, Vini silencioso, apesar de sempre ser vítima de preconceito por ser negro. Cristiano Ronaldo dissimulado. E o rei do gado dando suas cartas, empobrecendo o evento, criando situações humilhantes, violando direitos dos atletas e segregando, xenófobo como é, atitudes deploráveis num evento que deveria ser de paz e união entre os povos, através do esporte mais popular do mundo, que é o futebol.

Nessa — Inversão de Valores —, destaco alguns versos por denunciarem a realidade que se esconde atrás do grandioso espetáculo:

E o comitê da FIFA fingindo que está tudo perfeito.

Ninguém cancela o jogo, ninguém boicota a partida.

Olha pra tela da TV, o que você vê?

O circo armado para alienar você.

O país do futebol, da Copa, da fantasia.

A pátria amada idolatra a chuteira dourada.

É o herói de chuteira que ganha um milhão por semana.

Enquanto o professor morre de fome na lama.

Como falar de orgulho se o passaporte dita o respeito?

Ou seria o desrespeito? Milionário e Zé Rico que o digam.

Apesar das avestruzes e da lagarta-gato, para a frente, Brasil!

MERLI DINIZ

Professora, advogada, poeta e cronista. Vice-coordenadora da Comissão de Direito e Literatura da 22ª Subseção da OAB Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.