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Painel de ideias

Sangue no circo

Um fã que nutria obsessão passional por Zezinha, armado de uma faca, invade o palco e golpeia repetidamente a artista. Zezinha recebeu várias facadas numa das mãos e nas pernas

por José Luís Rey
Publicado há 12 horas
José Luís Rey (Divulgação)
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José Luís Rey (Divulgação)
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Eram os anos 1950, talvez os 40, quando a música caipira, muito antes de tornar-se conhecida como música sertaneja, era, por influência gaúcha, conhecida como música campeira. Mas já era muito popular inclusive no Estado de São Paulo – as duplas e os trios atraíam multidões aos circos, aos auditórios dos programas de rádio e às praças públicas de todo canto, consagrando nomes como Tonico & Tinoco, Tião Carreiro & Pardinho, I nezita Barros o e milhares – não é exagero falar em milhares de outros.

Mas vou me ater a um trio inovador, que conferiu ao acordeom um papel de protagonista na música caipira paulista, combinando-o com o rasqueado da viola e com letras e temas elevados à condição de clássicos do gênero, mas que acabou passando à história por uma grande tragédia, que só não foi maior devido ao fole do instrumento.

Os irmãos paulistanos Luís Raimundo e Ilvo Raimundo – no meio artístico conhecidos como Luizinho e Limeira – convidaram para juntar-se à dupla a graciosa e talentosíssima acordeonista Carmela Bonano, iniciada no instrumento desde os três anos de idade e mais tarde formada em Acordeom clássico. A dupla virou trio – Luizinho, Limeira e Zezinha, incorporando o apelido de infância da nova parceira.

Não faltavam motivos para um sucesso estrondoso – o trio já tinha um repertório pontilhado por êxitos como “O Menino da Porteira” (composta pelo próprio Luizinho, em parceria com Teddy Vieira). Ademais, a presença de uma artista bonita como Zezinha carregando no colo um instrumento até então reservado aos homens, transformou a moça numa espécie de símbolo sexual.

A popularidade do trio elevou-lhe o valor dos cachês, a ponto de Luizinho, Limeira e Zezinha receberem o equivalente a 50% da bilheteria dos espetáculos circenses, tornando-os autênticos sócios dos donos. Ganharam prêmios importantes, como o “Troféu Roquete Pinto”, a principal láurea do rádio brasileiro na época.

Mas na noite de 24 de setembro de 1963, no Circo Teatro “Estrela Dalva”, em Itanhaém, no litoral paulista, Zezinha, como sempre fazia, iniciou sozinha o espetáculo, o púbico não lhe tirava os olhos de admiração. Seguiu-se o grito lancinante que interrompe a apresentação. Um fã que nutria obsessão passional por Zezinha, armado de uma faca, invade o palco e golpeia repetidamente a artista. Zezinha recebeu várias facadas numa das mãos e nas pernas. Uma tentativa de feminicídio comedida há mais de 60 anos!

O fole do acordeão recebeu 11 facadas, serviu de escudo e salvou a vida da moça. Zezinha sobreviveu, após mais de 50 dias de recuperação.

O trio acabou transformando o trauma em narrativa na música“O Crime do Circo”. A história foi transformada em peça teatral, depois encenada nos circos pelo próprio trio. Todos os personagens dessa história já morreram. Zezinha, no ano de 2002; Luizinho em 1983 e Limeira em 2010.

JOSÉ LUÍS REY

Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos