PAINEL DE IDEIAS

Recorrências

Saltei na estação maravilhada com a minha viagem de trem, num tempo em que não se viaja mais neles

por Merli Diniz
Publicado há 14 horasAtualizado há 3 horas
Merli Diniz (Merli Diniz)
Galeria
Merli Diniz (Merli Diniz)
Ouvir matéria

Nesse novo tempo em que é somente um trem cargueiro que ouço todas as manhãs, recorro a um outro tempo de trens poéticos, quando tivemos um feliz reencontro. Foi uma curta viagem através da serra até o mar. Deslumbrante cenário. Além da aventura de tão encantadora viagem, havia também a sedução da montanha. Partimos rumo a Paranapiacaba, que em tupi-guarani significa "a cidade onde se vê o mar". A pequena, mas sofisticada composição, guardava ainda algum requinte do tempo em que fora inaugurada, com alguns vagões restaurados na tentativa de recompor o luxo outrora existente

Conferia tim-tim por tim-tim o meu sonho distante, nunca esquecido de viajar de trem. E o vagão-restaurante, ainda seria igual ao das minhas lembranças?

A aura de fausto não mais existia. As flores desbotadas das toalhas perderam a elegância. Em compensação, traziam a emoção do devaneio. Pedi um café expresso com pão de mel. As xícaras antigas e delicadas cumpriram o ritual do momento. Devorei a iguaria com idêntica avidez dos meus sete anos. A viagem através da cordilheira foi emocionante. Aterrissamos.

Sim, aterrissamos, porque a descida foi um voo. Planamos entre a terra e o céu até atingirmos a vila. Descemos setecentos e sessenta metros até vislumbrarmos o mar. No sistema funicular, presos aos cabos de aço, iniciamos a aventura de transpor a montanha.

A cordilheira do mar apresentou-se formosa a nossa passagem. Dia de sol, a primavera a florir a manhã. Quaresmeiras, ipês-rosas e brancos, manacás, pau-cigarras manchavam o verde da paisagem serrana.

A estação era uma coisa linda. Arquitetura inglesa, século 19. Lá fiquei sabendo que a Vila Ferroviária de Paranapiacaba pertence ao município de Santo André, no estado de São Paulo, e foi tombada pelo Iphan - Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural - em 2008, com o objetivo de preservar bens de valores histórico, cultural, arquitetônico e ambiental.

Visitamos todos os sítios. Conhecemos a história daquela estrada de ferro, construída para os funcionários da São Paulo Railway e, graças a ela, nosso café, chegava mais rápido aos lares europeus. Imaginei dias de neve, salas a meia luz e o saboroso líquido fumegante, sendo sorvido por desconhecidos que ignoravam a poética travessia. Pela serra e pelo mar.

A volta foi tranquila. Entardecer, sol-poente explodindo na tarde azul primaveril, cabos rangendo pelo esforço de carregar tantas histórias.

Saltei na estação maravilhada com a minha viagem de trem, num tempo em que não se viaja mais neles. Em um tempo em que, ao invés da poesia e alegria, provoca tragédias imensas com mortes inesperadas, mas paradoxalmente, anunciadas.

Nesse novo tempo em que nossos trens causam sofrimento e inquietude, que vão desde a tristeza à angústia por mortes, à amargura de perdas afetivas e materiais.

Nesse novo tempo em que nossos trens não grafam contos de amor, mas deixam trilhas de dor, é somente um trem cargueiro que ouço todas as manhãs.

Deixa a cada alvorecer, saudade. Passa nostálgico a embalar emoções antigas e imorredouras.

E para que eu não as esqueça, como amante ciumento, anuncia sua passagem.

E, desta forma, renova diariamente nossa antiga história de amor.

MERLI DINIZ

Professora, advogada, escritora, poeta, cronista, diretora do Sindicato dos Escritores de SP, membro da Comissão de Direito e Literatura da OAB/ 22ª Subseção Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras