Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
PAINEL DE IDEIAS

Recorde improvável

Relembrando esses tempos, cheguei a uma constatação quase impossível: sou o único dentre os 213.421.037 brasileiros que morou com dois dos atuais presidenciáveis

por Toufic Anbar Neto
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Toufic Anbar Neto (Toufic Anbar Neto)
Galeria
Toufic Anbar Neto (Toufic Anbar Neto)
Ouvir matéria

Soube há pouco tempo que ainda existem pensionatos. Fiquei surpreso. Era uma prática muito comum até os anos 1980. Geralmente, donos de uma casa com quartos vazios os alugavam. O público habitualmente era de estudantes, trabalhadores ou recém-chegados à cidade. Oferecia preços mais acessíveis para hospedagem, refeições incluídas e um ambiente familiar. Eu morei em pensões. Relembrando esses tempos, cheguei a uma constatação quase impossível: sou o único dentre os 213.421.037 brasileiros que morou com dois dos atuais presidenciáveis.

Em 1980, terminei o ensino médio (antigo colegial) em Andradina. No ano seguinte, fui com meu irmão Ramez para estudar em Ribeirão Preto. Ele no 2º colegial e eu no cursinho. O COC só existia lá. Era famoso por sua qualidade. As apostilas eram feitas pelos próprios professores. Vinha gente de todo lugar do Brasil. Eu e meu irmão nos hospedamos na Pensão “Sinhazinha”, que ficava a 50 metros da escola. Lá, morava um adolescente vindo de Araxá – MG, boa prosa, com quem fizemos amizade rapidamente. Íamos ao cinema aos finais de semana. Ele estudava junto com meu irmão. Décadas depois, ouvi o nome dele novamente. Tinha sido eleito governador de Minas Gerais, se reelegeu em 2022 e agora é candidato a presidente da república. Falo de Romeu Zema. Reconheci-o pelo topete. Era o mesmo de 45 anos atrás.

Eu passei na faculdade. Fui morar numa pensão onde tinha vários estudantes de medicina. Dentre eles, havia um que era um pouco mais velho. Eu no primeiro e ele no quarto ano de medicina. O apelido era Peninha. Era muito sistemático. Conversávamos bastante durante as refeições. Ele falava bem. Era bem didático quando explicava alguma coisa para nós. Quase uma palestra, embora fosse sempre conciso e objetivo. No ano seguinte, mudei-me para uma república. Depois disso, só o via no hospital. Após a formatura, nunca mais o vi pessoalmente. Anos depois, num amigo secreto, ganhei um livro. O autor era o Peninha, mais conhecido pelo grande público como Augusto Cury, que recentemente se lançou candidato a presidente.

Não sei se os fatos relatados contam pontos para eu figurar no Guiness Book: “o único que morou com dois presidenciáveis”. O fato é que a partir de agora, cada vez que surgir um candidato a qualquer cargo, procurarei saber se já morou em algum pensionato. Adulto jovem, você nunca imaginaria que aqueles corredores de pensão produziriam dois presidenciáveis. Tenho certeza de que eles nunca imaginariam chegar aonde estão. Talvez as grandes lideranças nacionais estejam surgindo longe dos palácios: em mesas simples de jantar, dentro de velhos pensionatos. Talvez o Brasil seja mesmo um país diferente: enquanto alguns procuram líderes em Brasília ou em partidos políticos, sem saber, eu jantava com eles numa pensão.

TOUFIC ANBAR NETO

Médico-cirurgião, diretor da Faceres, escritor e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras