Quando a medicina falha antes do corpo
A naturalização de mortes evitáveis, como a de Clinton, revela uma medicina pressionada por protocolos, metas de produtividade e escassez de tempo

A morte de meu amigo Clinton Craddock, em decorrência de uma infecção no apêndice — condição amplamente conhecida, diagnosticável e tratável pela medicina contemporânea — não pode ser compreendida como um infortúnio isolado. Trata-se de um acontecimento que expõe, contundentemente, uma crise estrutural da medicina atual: a subordinação progressiva da vida humana a um modelo mercadológico, sustentado por formações acadêmicas fragilizadas e por condições de trabalho precarizadas, no qual o cuidado é reduzido a serviço e a vida, a custo.
A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed 2025), instituída pelo Ministério da Educação, fornece dados objetivos que reforçam essa leitura. Dos 351 cursos de Medicina avaliados no país, cerca de 30% obtiveram desempenho insatisfatório, classificados nas faixas 1 e 2, abaixo do nível mínimo esperado de proficiência. Aproximadamente uma centena dessas instituições está sujeita a sanções administrativas, como redução de vagas ou suspensão de novos ingressos. Não se trata, portanto, de falhas pontuais, mas de um problema sistêmico na formação de profissionais que, em breve, ocuparão postos decisivos na linha de frente do cuidado.
Esse cenário decorre, em grande medida, da expansão desordenada de cursos concebidos mais como empreendimentos financeiros do que como projetos acadêmicos sólidos. Pierre Bourdieu já advertia que campos profissionais perdem autonomia quando se submetem integralmente à lógica do mercado. No campo médico, essa submissão compromete a densidade formativa, empobrece a experiência clínica e fragiliza a capacidade de julgamento crítico diante de situações que exigem discernimento, escuta e responsabilidade ética.
Ivan Illich, em “Nêmesis da Medicina”, analisou como sistemas excessivamente institucionalizados podem produzir efeitos iatrogênicos — isto é, danos gerados pela própria prática médica ou pela organização do sistema de saúde — que extrapolam o campo biológico e atingem dimensões sociais e morais. A naturalização de mortes evitáveis, como a de Clinton, revela uma medicina pressionada por protocolos, metas de produtividade e escassez de tempo, que passa a tratar riscos administrativos enquanto negligencia riscos humanos.
A essa fragilidade estrutural soma-se a precarização das condições de trabalho. Jornadas exaustivas, múltiplos vínculos, supervisão insuficiente e estruturas hospitalares sobrecarregadas criam um ambiente propício ao erro, à omissão e à indiferença institucionalizada. Não se trata, na maioria das vezes, de perversidade individual, mas do que Hannah Arendt descreveu como banalização da falha moral: a incapacidade de refletir criticamente sobre as consequências dos próprios atos — ou da ausência deles.
Quando uma apendicite evolui para óbito, não é o corpo que falha primeiro; é o sistema. Falham a formação, a organização do cuidado, o tempo clínico e a ética que deveria orientar a prática médica. A morte de meu amigo Clinton Craddock não deve ser diluída em estatísticas nem justificada por entraves administrativos. Ela exige crítica pública e responsabilidade institucional. Enquanto aceitarmos uma medicina orientada prioritariamente pelo lucro, continuaremos a produzir mortes evitáveis — e a chamá-las, cinicamente, de fatalidades.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados